29/10/16

Visita guiada ao outono na minha horta!

Depois do pecado de um pernil assado no forno, a redenção: tamarilhos e goiabas às rodelas com um pouco de doce de manga com maracujá.

Diz-se que o verão é a estação dos frutos. Será? Há pouco, na horta, apercebi-me de que tinha mais frutos disponíveis do que no pico do verão.
Nesta fotorreportagem, levo-vos a um mundo de cores, luz e promessas de sabores e texturas de fazer crescer água na boca! Tudo sem agroquímicos. Nem adubos nem pesticidas.
Bom fim de semana e aproveitam bem este outono a fingir que é verão.
Abraço.

ChefAntónio
Tanjas ao natural e marmelos para assar no forno!

Maçãs: a "francesa" e a reineta.

As uvas que ainda há...

E as romãs que começa a haver!

As exóticas: tamarilhos e goiabas.

Os tomates-cereja: espécies chucha e pera-amarelo.

As beringelas mini, com um picantezinho...

Pimentos: os verdes e os padrão (deixados amadurecer até ficarem bem vermelhos, são uma delícia!).

Finalmente, as malaguetas: excelentes em tudo, incluindo as omeletas!

26/10/16

Voluntário na Guiné 24: no reino da bagabaga!

Uma verdadeira catedral!

No artigo dedicado aos provérbios em crioulo, referi que um dos mais conhecidos tem origem nas bagabagas (é mesmo assim o plural): “Baga-baga ka ta kata iagu, ma i ta masa lama.” (A bagabaga não tem água, mas amassa o barro.)
A bagabaga é uma formiga-branca da família das térmites que marca a paisagem da Guiné-Bissau com as suas catedrais de barro cor de tijolo que podem atingir vários metros de altura. Veem-se sobretudo quando se sai de Bissau, mas também existem na capital e tentam “montar a tenda” nos locais mais improváveis.
Na floresta, entre as culturas do amendoim e do caju.

Nas imediações das palhotas.

Em Bissau, no interior do quartel da cooperação militar portuguesa!

As construções da bagabaga resistem ao vento, à chuva torrencial, a tudo!
Disseram-me que quando ferram as mandíbulas, fazem-no com tanta convicção, que não largam mais. Se forem puxadas, partem-se e a cabeça fica cravada na carne.
Contaram-se ainda que, durante a guerra colonial, eram utilizadas como abrigo. Como os projéteis não conseguiam trespassá-las, eram um colete antibala ecológico…
Nas deligências feitas para confirmar estas histórias, encontrei informações interessantes que as sustentam.
1. Veja esta passagem que encontrei num blogue de um antigo combatente português:
Fiquei cosido ao chão com o Peixoto encostado a mim e o Lourenço atingido do outro lado, apesar do risco o Ferreira de Carvalho, “o comprido”ou Vila de Rei foi lá e ajudou-me a levar o Peixoto para trás do baga-baga, onde foi assistido pelo maqueiro Carvalho, vi que tinha um pequeno orifício de entrada que quase não sangrou, sempre pensei que se safava, na altura muito embora tivesse um curso de primeiros socorros com a duração de uma semana, não tinha tempo nem os conhecimentos que tenho hoje para avaliar da gravidade de um ferimento, estava entregue aos cuidados do enfermeiro, eu naquele momento estava preocupado em sair daquela enrascada.
Do mesmo blogue, esta foto:

2. Aconteceu então, numa operação de golpe-de-mão à casa-de-mato inimiga de Biambe, o meu primeiro encontro com estas “más companhias” e quando já tinha algumas semanas de Guiné e de mato.
Dá-se uma emboscada aquando do regresso, o que já se contava e como era habitual, e então valha-nos, mais uma vez, um baga-baga.
“Entretido” aos tiros, só depois me apercebi das alfinetadas que estava a levar nas mãos e braços, e já pelas pernas acima.”Mas o que é isto?” Qual é a minha surpresa, vejo umas formigas avermelhadas a ferrarem-me por todo o lado.
Comecei a sacudi-las sem por a cabeça fora do baga-baga, isto é fora de uma eventual boa pontaria inimiga. À sacudidela elas não saíam e então, verifiquei, para desespero meu, que elas estavam encastradas na minha carne. Com o empenho que elas actuavam parecia que até faziam o pino. Só puxando-as é que elas saíam, sem que no entanto a cabeça deixasse de ficar agarrada através de uns tentáculos enterrados. Lembrei-me das abelhas - nas abelhas o abdómen fica ligado ao ferrão - nestas ficam, não um ferrão, mas umas pinças (ou cornos) com a cabeça agarrada.
Os baga-bagas eram os nossos abrigos predilectos. Ainda bem que existiam. Parecia que tinham sido feitos para aquele tipo de guerra – a guerra de guerrilha. Altos, espessos quanto baste, duros como cimento, e a espaços mais ou menos regulares. Em qualquer operação no mato, principalmente em zona laranjo/vermelha, era constante um olhar prévio em redor para ver onde havia um baga-baga que nos acudisse.
Havia zonas em que existiam mais, julgo que em terrenos mais secos. Nas bolanhas não havia. Certamente que a água das chuvas e das marés que as inundavam, não propiciavam tais obras de engenharia. (…)

3.Uma termiteira pode atingir vários metros de altura. É uma construção feita de madeira, terra, excrementos e saliva, que as próprias térmitas mastigam formando a argamassa com que estas tenazes e temidas formigas constroem estes verdadeiros castelos no ar, prolongando-se no subsolo por numerosas galerias. São tão fortes que dificilmente são destruídos mesmo com a ajuda de explosivos.

4. No reino das bagabagas, há uma rainha, mas também um rei!
In http://adbissau.adbissau.org/wp-content/uploads/2011/08/AD_Pub_Periodico_Partilha_009.pdf

Abraço!
ProfAP

23/10/16

Voluntário na Guiné 23: história do gin tónico!


Cronista sofre!... Sem fotos para ilustrar a história de hoje, tive de abraçar a “árdua” tarefa de ir comprar gin, lima e água tónica. Tudo para obter a imagem que abre o artigo. Claro que, depois de ter posado para a objetiva, a bebida não ia ser desperdiçada…
Dizem as boas línguas de Bissau que o melhor gin tónico da cidade é servido no bar “A Garagem”. Já lá tínhamos ido uma vez, mas só a Rosário pediu o famoso gin. Eu provei e a Edite cheirou.
Quando se aproximava a data do meu regresso a Lisboa, resolvemos dar uma alegria à Rosário e voltar ao local.
Convidámos o Comandante Madureira e, no dia estabelecido, logo após o jantar, lá fomos. Havia festa e comes e bebes nas imediações do bar, pelo que a animação era mais que muita.
Instalámo-nos numa mesa no exterior, ao ar livre, mas, quando íamos fazer o pedido, o dono veio dizer-nos que era melhor irmos rapidamente para o interior, pois vinha aí uma forte tempestade.
E vinha mesmo! Mal entrámos, levantou-se um vento fortíssimo e a uma chuva torrencial instalou-se de armas e bagagens, pondo em debandada os foliões que estavam a curtir a festa no exterior.
Chegaram os gins e, como não podia deixar de ser, fizemos ali uma festa. A Rosário, o Comandante e eu a bebericar o gin (lindo, num copo alto cheio de cubos de gelo e rodelas de lima) e a Edite, sempre mais ajuizada, a ver se nos portávamos bem.
Depois de um convívio bem regado, aproveitando uma aberta na tempestade, saímos, animados. O Comandante à frente, a Edite a seguir, a Rosário e eu a fechar a fila.
O momento “alto” da noite estava prestes a acontecer…
Pouco depois de termos saído do bar e virado à esquerda, a Rosário ia muito faladora e feliz, como todo o grupo. Depois de ter tropeçado em qualquer coisa, começou, literalmente, a cair aos poucos como se estivéssemos a viver a cena de um filme em câmara lenta. Quando ela ia meio caminho em direção ao chão, baixei-me com a rapidez que pude, tentando agarrá-la. Tudo em vão, pois o que tem de ser tem mesmo muita força!
A nossa amiga enfermeira caiu com a elegância possível e, como uma rã, esticou-se ao comprido no piso de terra da rua, cheio de buracos generosamente preenchidos pela água da chuva acabada de cair.
Saiu-lhe algo do tipo “Épá, caraças!”, enquanto a ajudávamos a levantar-se e a questionávamos: “Tás bem?”, “Magoaste-te?”, “Aleijaste-te?”
Que sim, que estava bem, que não tinha sido nada!
“Épá, tou toda suja!”, constatou ela pouco depois quando percebeu que tinha a roupa num estado lastimável: com lama e ensopada.
Regressados ao Bairro da Cooperação, despedimo-nos e lá foram a roupa da Rosário e ela própria para a barrela!
Nota: Depois de ter publicado artigo, recebi as fotos tiradas no dia da aventura pela Edite com a máquina da Rosário. Aqui fica uma delas:
A Rosário, o Comandante e o vosso cronista!

Para fazer o gin, estudei neste “manual”: “Como fazer o gin tónico perfeito” (http://observador.pt/2015/06/26/gin-tonico-perfeito/)

Abraço!

António

22/10/16

Guiné: a ilha onde é proibido derramar sangue!


Reserva da Biosfera e Património da Humanidade, Rubane é uma ilha paradisíaca onde foi instalado um hotel em troca de telhados de zinco e pirogas a motor para os habitantes da tabanca. Há um certo luxo no Ponta Anchaca, mas talvez contem mais as paisagens indizíveis em redor e as histórias que contam os bijagós.

Mitos, tabus e tradições ancestrais, florestas sagradas, poderes do além. Por detrás do cenário paradisíaco, da sombra das palmeiras e das praias desertas de água cálida e areia fina, a ilha de Rubane esconde segredos que bem podiam ser uma lenda. Mas não são. Neste pedaço do Atlântico não se podem fazer construções definitivas, travar lutas ou enterrar mortos. Não se pode viver para sempre. Rubane pertence aos bijagós - uma das mais de 30 etnias da Guiné-Bissau que deu o nome ao arquipélago de que polvilha a costa do país - e são eles quem ditam as regras da sua ocupação. Ou ditavam. Ilha sagrada, classificada pela UNESCO como Reserva da Biosfera e Património da Humanidade, a pobreza dos seus donos fez com que a cedessem à exploração turística em troca de telhados de zinco e pirogas a motor.
Quintino passeia à beira-mar junto às cabanas de palha seca construídas pela tabanca de Enem para o período do cultivo de arroz (a base da alimentação dos guineenses). O sorriso esburacado denuncia-lhe a queda dos primeiros dentes de leite. Não tem metro e meio de gente mas veste uma camisa de "homem grande" (adulto em crioulo), desabotoada e suja. Mais as cuecas verde garrafa para tapar o sexo. Com cinco anos, é o membro mais novo da comunidade em Rubane. "Anualmente vêm de Bubaque [a principal cidade e ponto de comércio de todo o arquipélago] pessoas das tabancas de Bijante, Enem e Ancadona para a plantação de arroz, milho e inhame e a produção de óleo e vinho de palma. Constroem casas provisórias, junto às terras que decidiram cultivar, e aí ficam durante cerca de seis meses. Ninguém pode viver aqui definitivamente, há uma série de rituais que têm de ser cumpridos", explica Abas Câmara, um bijagós de Bubaque e chefe de pessoal do hotel Ponta Anchaca.
Rubane é umas das reservas agrícolas dos bijagós, aqui produzem parte da comida que os alimenta ao longo do ano, e um sítio nacional sagrado. Ou seja, um local habitado por divindades e espíritos naturais e ancestrais, que as pessoas vêem no momento do nascimento e sobre o qual ouvem múltiplas histórias contadas pelos mais velhos. Com grande importância simbólica e social, os lugares sagrados pertencem às comunidades étnicas da Guiné-Bissau, que acreditam na punição divina para aqueles que violarem as suas regras.
Na ilha de Rubane não se pode derramar sangue ou enterrar corpos, nem que sejam de animais. Os macacos e ratos da Gâmbia têm a entrada interdita, por serem considerados pragas para as culturas, e só são autorizadas construções que possam ser demolidas em minutos. Nada do que ali acontece deve deixar marcas definitivas.
É por isso que quando chega a altura de preparar a terra para a vinda das primeiras chuvas, no início de Maio, os bijagós fazem de tudo para não irritar as divindades: "Antes do cultivo do arroz, o régulo [líder da tabanca] realiza uma cerimónia em Bubaque para que, caso algum homem se corte com a catana, ou faça uma ferida durante os trabalhos agrícolas, não seja castigado", conta Abas. Se alguém sangrar ou morrer em Rubane, é imediatamente levado para casa e a tabanca à qual pertence mata uma vaca e oferece tabaco ao comité de anciãos (constituído pelos homens mais velhos da comunidade), uma forma de pedir desculpa às entidades superiores.

Fartos de lutas
É final de Fevereiro, Quintino e a sua família são os últimos a abandonar a ilha, depois de concluída a colheita. Ficaram para fazer óleo de palma, usado em quase todos os pratos da cozinha bijagós, e vinho de palma, uma bebida alcoólica barata servida nas cerimónias religiosas e festas tradicionais.
O ano agrícola tinha já começado há onze meses. Os primeiros homens chegaram em Abril para cortar e queimar o mato. Depois foi a vez de as mulheres semearem e defenderem as culturas dos ataques de macacos e pássaros - a cada mulher casada coube uma parcela de terreno com arroz para os seus filhos. Se um homem tem mais de uma esposa, deve preparar campos diferentes e um terreno maior para as necessidades de toda a família. Na periferia dos arrozais, crescem também milho, melancia, abóbora ou inhame, mas só em pequenas quantidades para o sustento do dia-a-dia. Tudo é feito em conjunto. Independentemente do dono da terra, as pessoas trabalham os campos umas das outras. Em troca, recebem comida (aqueles que possuem mais arroz são considerados os mais abastados e os que preparam as maiores e melhores refeições), tabaco e vinho de palma.
O dia-a-dia dos agricultores coabita com o luxo do Hotel Ponta Anchaca, a cerca de meia hora a pé, desbravando floresta, do local onde Quintino citava de cor nomes de jogadores de futebol famosos cravados num tronco de árvore: "M-e-s-s-i, F-i-g-o, M-a-r-a-d-o-n-a, R-o-n-a-l-d-o". Por 130 euros por dia, os hóspedes têm direito a pensão completa, piscina com vista para o mar e uma praia quase exclusiva, onde também podem fazer pesca. As excursões às outras ilhas do arquipélago são pagas à parte mas não falta quem queira ir ver os hipopótamos a Orango, as tartarugas a João Vieira ou simplesmente passar um dia a pescar na minúscula Kéré. Poucos são os que se aventuram para dentro de Rubane e conhecem a sua essência.
Durante muito tempo, foi uma ilha que recebia por ano menos de mil pessoas, todas habitantes das tabancas de Bijante, Enem e Ancadona que, entre si, dividiam em três um território demarcado pelo curso dos rios. A promessa de uma vida melhor fez com que, no início da década passada, os Bijagós cedessem parte de Rubane para exploração turística. Mais uma vez, foram os deuses que tiveram a palavra final: "A Solange [empresária francesa dona do Ponta Anchaca] vestiu as tradicionais saias bijagós e foi levada com as mulheres das três tabancas para a Baloba [santuário onde é celebrada toda a vida espiritual desta etnia e se tomam as principais decisões que afectam a comunidade]. Aí, realizaram uma cerimónia para decidir se ela podia, ou não, construir o hotel. Cortaram a garganta de uma galinha e colocaram várias calabaças em fila no chão. Cada uma correspondia a "sim" e "não"", recorda o chefe de pessoal, Abas. A calabaça onde a galinha deu o último suspiro ditou o destino da ocupação de Rubane.
Em troca, todos os telhados de palha da tabanca de Enem - à qual pertence o pedaço de paraíso ocupado pelo Ponta Anchaca - foram substituídos por zinco e as artesanais pirogas dos seus pescadores ganharam um motor e uma nova vida, mais rápida e barulhenta. Uma troca que parece pouco justa a muitas das organizações não governamentais que trabalham na Guiné-Bissau: "É necessária legislação por parte do Estado e dos Governos para mediar estes processos de transacção", analisa o relatório intitulado Identificação e caracterização dos sítios naturais sagrados terrestres e marítimos na África Ocidental sobre o caso específico da Guiné-Bissau. A extrema pobreza e o analfabetismo dos locais, prossegue o documento, são "factores que pode levar as comunidade a ceder os seus territórios em troca de bens imediatos e de pouco valor".
À maioria dos turistas que visita Rubane, este é um tema que passa ao lado. No aeroporto Osvaldo Vieira, em Bissau, apanha-se uma avioneta com lotação para três pessoas em direcção a Bubaque. Aí, antes de aterrar, o piloto sobrevoa duas vezes a estrada de terra batida que faz de aeroporto, para que as mulheres que ali passam a carregar água e os animais tenham tempo de se desviar. Fica a faltar a viagem de meia-hora de barco que termina na praia do Ponta Anchaca. Nessa altura ouvem-se "ah!" de espanto. Pela paisagem que corta a respiração, pelo tamanho gigante dos peixes que saem das canas, pela sensação de estar a pisar um sítio virgem que, à excepção de duas unidades hoteleiras ali montadas, pouco deve ter mudado desde a sua origem.
Os quartos do hotel ficam em casas forradas de palha, com uma forma que imita a das cabanas construídas pelos bijagós. O mobiliário é tradicional, feito pela comunidade, e os trilhos de areia, que fazem a ligação entre a recepção e as casas, estão repletos de esculturas típicas de madeira, verdadeiras obras de arte muito procuradas por turistas que representam uma receita suplementar para as famílias.
A dona do Ponta Anchaca tentou conservar a traça local e, apesar de se ter incompatibilizado com as tabancas de Bijante e Ancadona - que a acusam de falta de apoio - parece manter uma relação cordial com os bijagós: "Quando foi o golpe de Estado, trouxe muitos meninos de Bubaque aqui para o hotel, para estarem protegidos. Depois até os levou a passar férias no Senegal, no La Maison Bleue [um hotel no sul do país do qual é proprietária]. O Rivaldo é um desses meninos, a Solange afeiçoou-se a ele e quase o adoptou. Vem cá passar todos os fins-de-semana", confidencia Abas.
Conhecidos como hostis e guerreiros, os bijagós são um povo que está farto de lutas. Primeiro foram os ingleses e alemães, que se tentaram apoderar do seu território, mas acabaram por ter de o abandonar após vários combates sangrentos. Depois vieram os portugueses, que requisitaram os negros do arquipélago para ajudar na construção de casas, estradas e portos e trabalhar em quintas experimentais. "Uma verdadeira catástrofe" para um povo que estava habituado a "uma vida livre e independente nas ilhas, com abundância de frutos e espaço livre à sua volta", descreve Luigi Scantamburlo no livro Etnologia dos Bijagós da ilha de Bubaque. Uma imposição que viria a destruir para sempre a agricultura cíclica que possuíam e pela qual ainda hoje pagam dividendos: nunca mais conseguiram deter a expansão de plantas selvagens no mato próximo das tabancas, levando à redução da área cultivada.
Apesar de cada vez mais visitado, o Arquipélago dos Bijagós - e as suas mais de 80 ilhas - está longe de receber turismo em massa e mantém-se impermeável a grandes transformações. Sente-se que pouco mudou desde 1471, quando o italiano Gracioso Benincassa mapeou pela primeira vez algumas destas ilhas, na altura apelidadas de Ussamansa, Buamo e Buauo. Na paisagem, no ar que se respira, no modo de vida das pessoas.
Por isso, passar férias em Rubane pode significar pernoitar num hotel de luxo, com comida de aspecto gourmet e actividades trendy, daquelas que podem ser realizadas em qualquer lugar do mundo. Mas também pode ser isso e muito mais: passear pela floresta, tentar comunicar com as pessoas - que falam o dialecto bijagós (nenhuma entende português e é raro falarem crioulo)-, aceitar as refeições de arroz com caldo de chabéu que amavelmente oferecem ou fugir das iguanas - que, apesar de inofensivas, caminham demasiado perto dos humanos - são algumas das opções. Os mais aventureiros podem ainda apanhar uma piroga tradicional, de segurança duvidosa, e deixar-se levar por um pescador local.

Guiné - gastronomia 1: caldo de mancarra!


No mapa do tesouro da gastronomia da Guiné-Bissau, há três marcos incontornáveis. Sendo a base principal da alimentação no país o arroz, não surpreende que no pódio estejam três caldos: o caldo de mancarra (amendoim), o sigá (caldo de óleo de palma) e ainda o caldo de chabéu (fruto de palmeira).
Um dos trabalhos multicompetências dos meus alunos Kripor (curso intensivo de língua portuguesa, concluído há quase um mês em Bissau) foi procurar alguém (familiar ou amigo) especialista na confeção do caldo de mancarra.
Marcaram um encontro com o(a) cozinheiro(a) escolhido(a), tomaram notas sobre os ingredientes e o modo de preparação, escreveram a receita e, finalmente, trouxeram-na para a aula.
Com base na síntese das recolhas feitas pelos jovens, proponho-vos a "Receita Kripor de caldo de mancarra": muito simples, mas respeitando a tradição. O facto de ter trazido da origem óleo de palma (de produção artesanal, com uma cor alaranjada magnífica e um sabor delicado) e pasta de amendoim (sem qualquer aditivo, comprada na lojinha "Sabores da Tabanca") facilitou-me a tarefa. Numa versão mais europeia, sugiro-vos a substituição do óleo de palma por azeite e a pasta de amendoim por manteiga de amendoim (mesmo com aditivos…).


Ingredientes para 4 pessoas:
.1 frango cortado em pedaços
.2 cebolas médias cortadas às rodelas finas
.sumo de 1 limão
.300 g de tomate bem maduro (pode ser enlatado) triturado
.300 g de pasta de amendoim (ou manteiga de amendoim)
.óleo de palma ou azeite (6 colheres de sopa)
.2 malaguetas cortadas em tiras finas (sem as sementes)
.água e sal
Nota: Retirei os caldos (Knorr e Maggi, a que chamam “gosto” ou “gusto”), uma constante nas receitas recolhidas. Estes caldos são uma ameaça para as tradições gastronómicas e para a saúde dos guineenses.

Preparação:
1. Num tacho antiaderente, deixe a cebola e as malaguetas estufarem no óleo de palma durante 5 minutos em lume médio.
2. Junte o frango, o sumo de limão, uma pitada de sal e deixe apurar em lume brando durante 10 minutos, mexendo de vez quando.
3. Junte a pasta de amendoim (previamente transformada em puré fluido com um pouco de água), o tomate triturado e envolva tudo muito bem.
4. Deixe cozinhar em lume médio-baixo até o frango ficar tenro e incorporar todos os sabores do caldo. Cerca de 30 minutos deverão ser suficientes.
5. Sendo necessário, retifique o sal, desligue o lume e deixe repousar 5 minutos com o tacho tapado.
6. Sirva com arroz branco e delicie-se!
7. A acompanhar, vinho branco fresco ou uma bebida bem guineense: uma infusão de flores de ondjo (uma espécie de hibisco) com hortelã. É só juntar 3 colheres de sopa bem cheias de flores (há nas ervanárias e vi hoje de manhã que também há à venda a peso no Jumbo) a 1 litro de água. Quando começar a ferver, junte três pernadinhas de hortelã. Conte um minuto, desligue o lume e deixe repousar cerca de meia hora. Junte gelo e sirva(-se).


Abraço e bom apetite!

18/10/16

Voluntário na Guiné 22: sabedoria em crioulo!

Espetacular termiteira de bagabaga!

Como em todas as línguas, os muitos provérbios do crioulo guineense (não conhecia nenhum!) são um manancial de ideias sábias tecido na dureza da vida quotidiana.
O primeiro que descobri foi este:
1. Baga-baga ka ta kata iagu, ma i ta masa lama. = A bagabaga não tem água, mas amassa o barro.

É muito usado na educação das crianças, passando-lhes a mensagem de que o importante é “desenrascar-se” com engenho mesmo quando as condições da vida são adversas.
A bagabaga é uma térmite, cujas construções (feitas de substâncias lenhosas e barro e que muitas vezes ultrapassam os dois metros de altura) fazem parte da paisagem. Quando se sai Bissau, é impossível não as ver, “plantadas” entre os cajueiros e as mangueiras. Um destes dias, vou dedicar-lhe um artigo, incluindo uma história que me contaram.

Embora, 70% do seu léxico tenham influência do português, o crioulo guineense (com muito em comum com o crioulo de Cabo Verde) não é uma espécie de "português mal falado" como muitos pensam. Tem regras próprias e raízes nas línguas indígenas. Por exemplo, bagabaga, grafia adaptada ao português, vem do crioulo baga-baga, formado a partir do bambara baga e do mandinga baaba.
Muito interessante também é a sua sonoridade, agradável ao ouvido, resultado sobretudo do jogo entre os sons “i” e “á”. Experimente ler em voz alta os provérbios 15 e 18. Lê-se como se escreve (não há acentos no crioulo).

2. Bardadi i suma malgeta: i ta iardi.
A verdade é como a malagueta: arde.
3. Bariga ka fila ku arus, ki-fadi miju.
Barriga que não se dá bem com arroz, muito menos se dará bem com milho.
4. Bianda sabi ka ta tarda na kabas.
Comida saborosa não demora muito na panela.
5. Bibus na cora, ki-fadi mortus.
Se os vivos choram, que dizer dos mortos.
6. Boka ficadu ka ta ientra moska.
Em boca fechada não entram moscas.
7. Deus sibi ke k' manda iagu di mar salga. 
Deus sabe porque a água do mar é salgada.
8. Dinti mora ku lingu, ma i ta daju i murdil.
Os dentes moram com a língua, mas às vezes mordem-na.
9. Dus galu ka ta kanta na un kapuera.
Dois galos não cantam no mesmo poleiro.
10. E fila suma gatu ku kacur.
Dão-se como o cão e o gato.
11. Falta di mame, bu ta mama dona.
Na falta de mãe, mama-se na avó.
12. Forsa di pis, iagu.
A força do peixe é a água.
13. Garandis kuma kanua sin remu ka ta kanba mar.
Os anciãos dizem que canoa sem remo não atravessa o mar.
14. Gatu fartu ka ta montia.
Gato de barriga cheia não caça.
15. I ka ten sabi ku ka ta kaba.
Não há bem que nunca acabe.
16. I sancu di dus matu.
É macaco de dois matos.
17. Kabra nunka i ka ta misa dianti di lubu.
A cabra nunca mija perto da hiena.
18. Kacur ka ta tene kacur.
O cão não tem cão.
19. Ami i rasa papaia: N ka ta durmi na bariga di algin.
Sou como o mamão: não fico parado na barriga de ninguém.
2o. Garandi i polon, ma mancadu ta durbal. 
O poilão é grande, mas o machado derruba-o.

Para ilustrar o provérbio 20., eis um imponente poilão fotogrado em Farim.

Abrasu e não esqueça de que “pekadur dalgadu i ta dana moransa” (quem tem mau feitio estraga toda a comunidade).

António

17/10/16

Voluntário na Guiné 21: visita aos rápidos do Saltinho!

A azul, a estrada entre Bissau (à esquerda) e os rápidos (seta laranja).

Depois de uma primeira tentativa em que não chegámos ao destino, reprogramámos uma visita a um sítio que toda a gente nos dizia ser imperdível: os rápidos do Saltinho, na região de Bafatá, não muito longe da fronteira com a Guiné Conacri.
No dia estipulado, em plena época das chuvas, lá fizemos o percurso assinalado no mapa. Eu, as minhas colegas de missão (Edite e Rosário), uma amiga da Edite (a Alice, médica) e uma amiga da amiga da Edite (a Alcina, enfermeira).
Os 350 quilómetros da viagem (ida e volta) valeram a pena!

O cenário natural é impressionante. Indiferente ao verde da vegetação e ao azul do céu, aqui e ali pincelado de branco e cinzento, o rio Corubal, depois de uma curva apertada, passa-se dos carretos, lança-se vertiginosamente no declive do terreno, enfurece-se numa ebulição de espuma e remoinhos e, não deixando dúvidas sobre quem ali reina, lança um forte e contínuo rugido intimidador. Depois de passar sob a ponte (do Saltinho), espalha-se pela planície e fica manso como um cordeiro…

   
Pra ter uma ideia e uma magnífica banda sonora...


Depois da visita, na pousada do Saltinho (onde existia um aquartelamento na época colonial), deixaram-nos usar uma mesa para fazermos o nosso almoço-piquenique com vista para o rio. A chuva deu-se por convidada e caiu fortemente, o que levou os enormes caracóis guineenses (um fascínio para mim) a saírem dos esconderijos e a fazerem escalada nos troncos das palmeiras.

O rio visto da pousada.

Na primeira imagem, da esquerda para a direita: Alcina, Edite, Alice e Rosário.

Exotismo gastrópode!
Abraço
António

16/10/16

Voluntário na Guiné: música guineense 1


Um dos trabalhos orais no curso de português foi a seleção de um tema da música guineense em crioulo. Cada aluno devia apresentar o título da canção (e respetiva tradução), o cantor, uma síntese do assunto abordado na letra e as três razões determinantes para a escolha feita. Por fim, era passada a canção.
Irei partilhando aqui as canções que estiverem disponíveis no Youtube. Será uma forma diferente de viajar pela cultura da Guiné-Bissau.
Esta foi a escolha (hip hop/rap) do David.
Título: Prison sentimental 
Cantor: Lesmes
Assunto:  História de uma paixão contrariada pela família da jovem. O que começa com um namoro às escondidas termina num desfecho trágico, com a morte dos dois apaixonados. Uma espécie de Romeu e Julieta dos tempos modernos.
Abraço.
António

15/10/16

Voluntário na Guiné 20: o chichi!

A Rosário a pôr a mesa. Mal sabia ela o que estava para vir...

Era sábado e fomos até Farim, no Norte, na direção da fronteira com o Senegal.
Como os francos CFA (uma espécie de euro partilhado por alguns países africanos) já não abundavam e tinham de ser aplicados prioritariamente para encher o depósito de gasóleo (na Guiné, mais caro do que a gasolina), levámos as vitualhas para um piquenique.
Próximo de Farim, já no regresso, instalámo-nos debaixo de uma mangueira nas imediações de uma tabanca (aldeia).
Tudo correu bem: sem chuva, uma bela salada, conservas, azeitonas (um luxo!). Tudo regado com uma infusão fresca de ondjo (flor seca, da família do hibisco, rica em ferro e vitamina C) e com muuuita animação.
Antes de seguirmos viagem até uma bomba da GALP para um cafezinho (muito bom!), a Rosário teve uma vontade imperiosa de fazer um chichizinho. Depois de conferenciar com a Edite e analisarem os prós e os contras dos sítios possíveis (que, literalmente neste caso, a necessidade aguça o engenho), lá escolheram uma pequena clareira na vegetação, perto da mangueira que nos deu abrigo, junto à estrada.
Enquanto eu vigiava o lado esquerdo da estrada, a Edite controlava o lado direito e ia cantarolando num perfeito crioulo europeu: “Ka passa, ka passa.” (Não passa, não passa.)
Eis senão quando, vejo vir de dentro da floresta, por um pequeno carreiro, um jovem guineense, a pedalar vigorosamente na sua bicicleta. Em que direção? Adivinharam! Na rota da enfermeira Rosário, coitadinha, de calças na mão, desprotegida e prestes a ter um encontro imediato do lado que menos esperava.
Só tive tempo de dizer, alto e bom som, respondendo à lengalenga da Edite, “Ai, passa, passa!”.
Ato contínuo, ouve-se um grito-lamento: “Epá, não me digas que vem aí alguém..” Confirmei-lhe a suspeita com um “Vem do lado do mato!
A poucos metros do espaço central da ação (a tal clareira “escondida”), depois de ter visto não sabemos o quê, o jovem parou a bicicleta e virou a cara para o lado oposto e ficou ali, imóvel, enquanto a infeliz Rosário se (re)compunha.
O jovem, retomou a marcha e, ao passar por nós, deu-nos um sonoro bom-dia.
Já dentro do carro, com a Edite a pôr o pé no acelerador, a Rosário recuperou a fala: “Epá, agora é que me está a dar os calores!

Abraço.

António