06/02/16

Ilha do Príncipe – 2.º dia (parte II): a roça Sundy

1. Chegada à roça

Itinerário (feito de jipe no dia 24/01/2016):
1. Roça Paciência 2. Hotel Belo Monte (com um miradouro para a praia banana) – 3. Roça Sundy4. Santo António, a capital do Príncipe (com almoço no incluído no pacote) – 5. Praia Abade (comunidade piscatória) – 6. Miradouro Nova Estrela.

A roça Sundy foi no passado casa da família real portuguesa na ilha do Príncipe. Fundada no século XIX, as datas variam em função dos edifícios. Em 1921, a casa principal, uma das construções mais recentes da roça;  por volta de 1880, a ainda imponente cavalariça, em estilo revivalista, com uma muralha de tipo medieval e janelas em forma de ferradura; em 1915, o complexo de sanzalas.
Encontramos também, à entrada, à esquerda, um grande hospital (cada roça tinha o seu) e o que é considerado o mais interessante edifício do local: uma capela a fazer lembrar uma ermida seiscentista.
Neste espaço, há também plantações de cacau, café, pimenta e baunilha. A primeira planta de cacau do arquipélago, vinda do Brasil, terá sido plantada nesta roça. 
A roça está concessionada à HBD do milionário sul-africano Mark Shuttleworth, estando em curso a sua recuperação, iniciada com o restauro da casa principal.

2. Casa principal (em recuperação). No interior, ainda o mobiliário colonial. O chão do alpendre traseiro com motivos náuticos e da fauna de Portugal.

3. As cavalariças. Sente-se ainda nas boxes o nervoso miudinho dos cavalos...

4. As sanzalas: com gente dentro e a ameaçarem ruína, nelas (sobre)viveram no passado os serviçais e trabalhadores da roça.

5. Protagonistas da azáfama de outros tempos, as máquinas aguardam o piedoso restauro. A locomotiva a vapor animava as prensas na produção de óleo de coco. Para libertar o excesso de vapor, apitava como um comboio, ouvindo-se ao longe.

6. Implacáveis e silenciosas, as raízes alimentam-se dos carris que transportaram há muito o cacau, alimento dos deuses que escravizou os homens...

7. A principal razão da fama da Sundy está no facto de ter sido aqui que, em maio de 1919, Sir Arthur Eddington efetuou uma expedição de observação de um eclipse solar total que veio comprovar a teoria da relatividade de Albert Einstein.

8. Nesta casa da roça, nasceu, ainda na época colonial, o nosso guia, o Sr. João Catarino.

9. A minha companheira de viagens no espaço e no tempo da vida emoldurada nestes preparos de menina de mochila às costas pronta para ir prà escola...

 10. cacaueiro
 11. cafezeiro
 12. pimenta
13. Ylang-yllang (cananga odorata): uma árvore mágica, cujas flores, muito perfumadas, são a base do perfume channel nº 5. Pouco exigente em relação ao clima e ao solo, a planta floresce muito jovem e dá flores continuamente.
Abraço.
António


Fonte de parte das informações partilhadas no artigo e da foto2: http://www.asrocasdesaotome.com/rocas/sundy

03/02/16

Ilha do Príncipe – 2.º dia (parte I)


Itinerário: 
1. Roça Paciência 2. Hotel Belo Monte (com um miradouro para a praia banana)3. Roça SundiSanto António, a capital do Príncipe (com almoço no incluído no pacote) – 4. Praia Abade (comunidade piscatória) – 5. Miradouro Nova Estrela.
 A atividade prevista para o 2.º dia foi feita de jipe e durou o dia inteiro. Apresento-vos hoje as paragens 1 e 2.

1. Roça Paciência
Concessionada (como o Bom Bom Resort) à HBD (do milionário australiano Mark Shuttherworld).
Simples e despojado do ponto de vista arquitetónico, com um terreiro, o local faz lembrar uma pequena quinta.
Antiga casa do administrador com uma belo sisal.

A roça Paciência está actualmente em recuperação e dedica-se a atividades agrícolas. Funciona como escola de pedreiros, uma espécie de formação em serviço em que os jovens são assalariados e aprendem e aplicam as técnicas do ofício.
Local de trabalho e de aprendizagem da arte de pedreiro.

Gostei de ver a horta (totalmente biológica) e a zona de secagem de vários produtos (banana, papaia, gengibre, açafrão-da-terra, malagueta…). 
 Açafrão-da-terra (curcuma) já seco.

 Coentro-selvagem. Planta muito interessante um pouco menos aromática do que o nossa.

À entrada da roça, vi, pela primeira vez, uma planta de banana-ouro.
Também são produzidas compotas diversas. Apreciei particularmente as de água de coco com banana (uma coisa do outro mundo!) e a de papaia com goiaba. Todos os produtos da roça, que podem ser comprados in loco, mas não no resort, são usados no restaurante do Bom Bom Resort, incluindo um muesli tropical disponível ao pequeno-almoço.

2. Hotel Roça Belo Monte
Concessionada (com a praia banana) à empresa holandesa IHDC durante 30 anos.
Com uma localização magnífica, este hotel de charme nasce da recuperação de edifícios coloniais da Roça Belo Monte, estando prevista a constituição em parte das instalações do "Museu de História Natural do Príncipe".
  
Entrada e antiga casa do administrador da roça.

Terreiro da roça. À direita, quartos do hotel. Ao fundo, edifício que será o museu de que falei acima.

Qual patroa da roça, a Cecília ouve, atenta, as explicações do Sr. João.

Lá ao fundo, pode tomar-se um café a respirar a floresta e vestindo os olhos com o azul do mar que vos vou mostrar na última foto de hoje...

No miradouro, o Sr. João, nosso guia. Como muitos santomenses que conheci, um homem tranquilo e com uma filosofia de vida cativante. Ao fundo, o turista alemão que nos acompanhou. Arrogante e mal-educado, que só visto!

Aí está, pela forma que tem, a praia banana. Ficou famosa quando serviu de cenário para um anúncio da Bacardi. Pode-se lá chegar através da roça Belo Monte ou de barco.

Abraço ainda tropical.
António

02/02/16

Como pôde uma mestiça dirigir uma roça no Príncipe há quase 200 anos?


Como referi no artigo de ontem, Dona Maria Correia foi uma mulher poderosa que dirigiu a roça Ribeira Izé. Como é possível uma mestiça ter tal estatuto?
A fonte que citei ontem mostra que há uma razão histórica que nos permite compreender a situação.
Desde o início da colonização, havia ordens oficiais para entregarem aos povoadores escravas do lote pertencente à Fazenda Real, para que estes lhes “fizessem geração”. Um alvará do rei D. Manuel recorda como ele e, antes dele, D. João II tinham ordenado que aos que fossem para São Tomé e Príncipe (degredados ou não) se desse, a cada um, uma escrava para a ter e dela se servir, visando o povoamento. No entanto, segundo a “lei” do ventre (as crianças têm o estatuto do ventre que as gerou), filho de escrava, escravo era, pelo que foi preciso dar um segundo passo que não fora previsto na promoção das uniões mistas (que tinha inicialmente em vista assegurar apenas uma mão de obra bem integrada na ordem colonial). Dessa forma, por carta régia de 29 de Janeiro de 1515, o monarca concede a liberdade às escravas doadas aos primeiros povoadores e aos respetivos filhos.
Informação transcrita/adaptada de “MESTIÇAGEM, ESTRATÉGIAS DE CASAMENTO E PROPRIEDADE FEMININA NO ARQUIPÉLAGO DE SÃO TOMÉ E PRÍNCIPE NOS SÉCULOS XVI, XVII E XVIII”, de Arlindo Manuel Caldeira.

Abraço.

António

01/02/16

ILHA DO PRÍNCIPE - Final do 1º dia

Ainda 23/1
Pouco resta dos domínios de Dona Maria Correia...

Na caminhada realizada através da floresta, que foi noutros tempos uma parte florescente da roça Ribeira Izé, o guia (Nelito) contou que uma tal Maria Correia, mulher viúva muito poderosa, dirigia a roça com punho de ferro. Disse-nos ainda que a senhora tinha um grande apetite por homens. Quando algum trabalhador lhe agradava, desfrutava dele e depois, para que não contasse a ninguém… matava-o!
Inicialmente, decidi não referir o assunto por me parecer algo mais próprio das lendas do que dos factos históricos.
Esta tarde, estive a pesquisar o assunto e, surpresa das surpresas, a história do Nelito pode ter algum fundamento.
Encontrei referências a Maria Correia Salema (1788-1861) num artigo (aqui) de Arlindo Manuel Caldeira (do Centro de História de Além-Mar, Universidade Nova de Lisboa e Universidade dos Açores).
Maria Correia, conhecida como "princesa negra", era mestiça e provinha de uma rica família do Príncipe. Após a morte do segundo marido (26 anos mais novo), em 1852, assumirá as rédeas da administração da casa (se é que não tinha tido sempre, como parece, uma influência decisiva) quer na parte agrícola quer, sobretudo, na atividade comercial, em particular no altamente compensador tráfico clandestino de escravos, no período pós-abolicionista. Revelará sempre uma extrema perspicácia para o negócio, obtendo lucros fabulosos, que lhe permitirão uma vida de grande ostentação, dispondo nomeadamente de grandes casas apalaçadas, uma na roça Ribeira Izé e outra junto da cidade. O gosto pelo quotidiano faustoso bem como a fama da sua sexualidade insaciável, provavelmente ampliadas, ficaram na memória popular.
Regressados da aventura na floresta, fomos fazer o reconhecimento das praias do resort (uma de cada lado) e percorrer a famosa ponte de madeira de cerca de 300 metros que liga a zona dos bungalows ao ilhéu Bom Bom, onde está o restaurante. 
Olhem, que coisa mais linda, tão cheia de graça...

A temperatura do ar, sempre junto aos 30°, sem grandes oscilações durante a noite, e a água (limpa, transparente, vestida de vários tons de azul), a rondar os 25°, permitia tomar banho a qualquer hora do dia ou da noite sem ter frio.

Piscina mesmo em frente ao bungalow...

Praia à esquerda...

   Praia à direita. A minha preferida: mais quente e calma como um lago!

Amanhã, trarei um passeio de jipe inesquecível: roças, praias, miradouros e a cidade mais pequena do mundo (Santo António, capital do Príncipe). Um dia inteiro de magia tropical!
Abraço.
António

31/01/16

ILHA DO PRÍNCIPE - 1º dia

23/1- Início da aventura
1. Saída de Lisboa no voo das às 00h05 da STP Airways. Apesar de se sentir no avião um cheiro a pó e o espaço no banco ser exíguo, a simpatia da tripulação, a razoável qualidade das refeições servidas (ao jantar, uma refeição quente com dois pratos à escolha) e sobretudo o comprimento dos horários e o facto de o voo ser direto (ao contrário da TAP, que faz escala em Accra) mostram que foi uma escolha acertada. 
2. Após seis horas de voo, chegada a São Tomé às 6h00 (hora igual à de Lisboa).
3. Às 9h00, entrada num pequeno avião de 18 lugares com sinais de muito uso. Quase no final da viagem (que dura 35 minutos), uma perda súbita de altitude fez com que o saco que levava ao colo saísse disparado em direção ao teto. Instintivamente, abracei-me ao saco, saindo um sonoro “Valha-me Nossa Senhora!”. A senhora do banco da frente deu um grito, acompanhando-me no desespero. Os restantes passageiros, incluindo a minha dama, divertiram-se com a situação.
 Filme um pouco tremido, mas o nervoso miudinho não dava para mais...

Acabadinhos de chegar no Africa's Connection!

4. Tínhamos o Rúben do Resort “Bom Bom” à nossa espera no aeroporto. Depois de uma viagem de pouco mais de 20 minutos por uma estrada de terra escorregadia através da floresta que, por irmos na parte de trás ao ar livre, pudemos apreciar, chegámos ao destino. Como havia bungalows disponíveis, pudemos fazer o check-in de imediato.

5. Ao início da tarde, realização da primeira atividade prevista: passeio a Ribeira Izé através da floresta.

Durante pouco mais de duas horas, sob a orientação do Nelito (o nosso guia) pudemos sentir o respirar o bafo quente da floresta, ouvir os pássaros e ver os “craques” (nome dado a um tipo de caranguejos) a esconderem-se nas tocas (não fossem eles comestíveis com molho picante e bem regados com Rosema, cerveja de S. Tomé!), as árvores imponentes, as trepadeiras e as ruínas de uma igreja, o que resta do que já foi uma roça. Como nos esquecemos de aplicar o repelente, fomos uma espécie de manjar branco para os mosquitos que não se fizeram rogados nas manifestações de boas vindas…

Fruto ácido da floresta usado na preparação de molho para peixe grelhado.

Ruínas de uma igreja, cujo espaço a floresta, impaciente, reclama...

Abraço e até amanhã com mais uma partilha!
António

30/01/16

São Tomé e Príncipe: partilha de uma aventura!

Na floresta, a caminho da Ribeira Izé (Príncipe), o Nelito (nosso primeiro guia) fez questão de posar para a objetiva junto a um imponente marapião...

Passada uma semana e tiradas umas centenas de fotos, é chegado o momento de organizar informações, imagens e emoções e, como prometido, passar à fase da partilha.
Das viagens que tive oportunidade ao longo da vida, houve duas que me marcaram profundamente.
1.      Há anos, mais de 20, quando a região ainda era tranquila, uma viagem ao Egito deu vida ao que tinha estudado na escola na adolescência: pirâmides, museu do Cairo, Vale dos Reis, Tutankamon, cruzeiro no Nilo, deserto do Saará…
2.      Agora, pude sentir, na pele e na alma, a ilha do Príncipe, classificada Reserva Mundial da Biosfera pela UNESCO em julho de 2012, onde a natureza se afirma com múltiplas espécies botânicas e zoológicas, algumas endémicas.
Nesta viagem, entre 23 e 30 de janeiro, estive quatro dias no Príncipe e três em São Tomé. Quase tudo o que tinha sido planeado foi realizado. Infelizmente, a caminhada durante de quatro horas ao longo do rio Papagaio (no Príncipe) em direção ao pico com o mesmo nome teve de ser cancelada, pois no dia anterior uma violenta e pouco comum tempestade inundou tudo, fez cair árvores e deixou o trilho intransitável.
Nos próximos artigos, irei apresentar a viagem com detalhes e fotos que irei entretanto selecionar. O relato poderá dar dicas e pistas a quem tem vontade de fazer as malas e conhecer estas ilhas esculpidas a fogo e lava e plantadas no meio do Atlântico ou simplesmente estimular a imaginação de cada um.
No momento em que alinhavo esta introdução, o avião descolou há três horas, faltando outras tantas para chegar a Lisboa.
Já com um suspiro de saudade e o corpo ainda a sentir a intensidade do clima e as carícias docemente mornas da água do oceano, deixo-vos o meu abraço.

António