09/02/16

Ilha do Príncipe - 3º dia: visita à capital.

Visita realizada no dia 25/1/2016
Vista áerea da cidade

Com o cancelamento da expedição de 6 horas de subida ao longo do rio Papagaio, devido aos efeitos severos de uma tempestade ocorrida na véspera da nossa chegada, improvisámos uma visita à capital da ilha com almoço no Beira-Mar, que é aconselhável marcar de véspera com a D. Juditinha (tel. 9916310), senhora muito simpática e com um lindo sorriso.
Fizemos os oito quilómetros que vão do resort Bom Bom até à cidade de táxi (10€).
Com perto de 1400 pessoas, Santo António é a capital da ilha Príncipe. Nem o movimento constante das motas, feito de sons ronronantes, perturba a tranquilidade que emana da cidade, considerada a mais pequena do mundo. O verde da natureza e as cores vivas (das flores, sobretudo hibiscos, e do vestuário dos adolescentes) são pinceladas numa tela aconchegada pelas montanhas e mansamente atravessada pelo rio prestes a lançar-se nos braços do oceano…
Depois do almoço no Beira-Mar, continuação da visita à cidade em direção ao estádio de futebol, onde encontrámos bancas a vender jaca, banana-pão e um delicioso doce típico à base de coco com açúcar com um nome de fazer crescer água na boca: a açucarinha!

Praça Marcelo da Veiga: o Palácio do Governo e as vistosas palmeiras-leque.

A baía, único local na ilha onde vi lixo na praia...

O rio Papagaio, que atravessa a cidade. Um peixe anfíbio a vigiar-me...

Imponente, o pico Papagaio. Há uma expedição de sete horas que se pode fazer com guia.

Um almoço opíparo: depois de uma entrada com os melhores amendoins torrados que já comi, uma saborosa muqueca de peixe c/ arroz regada com Rosema (excelente cerveja santomense). À sobremesa, a que parece ser a fruta da época na cidade: uma perfumada e doce rodela de ananás. Preço total: 15€.

Aqui, o tempo, tanto o cronológico como o meteorológico, é uma borracha que vai apagando os vestígios da colonização...

A réplica do padrão do descobrimento foi o epilógo perfeito para esta incursão no espaço e no tempo.

Às 14h30, regresso ao Bom Bom na carrinha de transporte dos trabalhadores do resort.
A concluir o dia, a praia (sempre!) e safari fotográfico para recolher imagens para um post que vai chamar-se "cores do Príncipe".

Abraço e até amanhã com mais aventuras tropicais!
António
Imagem da vista aérea da cidade encontrada AQUI.

07/02/16

Ilha do Príncipe: final do 2º dia!

Atividades finais da excursão feita de jipe em 24/1/2016

Praia Abade: muito mais do que uma praia, uma comunidade!

Depois da visita, rica em detalhes, à roça Sundy, seguiu-se o almoço (incluído no pacote) em Santo António, capital da ilha do Príncipe, considerada a mais pequena cidade do mundo. Junto à baía, no “Passô”, um pequeno restaurante, um menu que não dececionou: a abrir, uma bela sopa de feijão branco c/ massa e hortaliça; a seguir, uma fresquíssima posta de corvina grelhada c/ molho ligeiramente picante; como sobremesa, ananás do Príncipe (também lhe chamam abacaxi): doce, macio, suculento e perfumado. Refeição regada com uma garrafa de água da marca… Serra da Estrela!
O acompanhamento tradicional: banana-pão frita!

Retemperadas as forças, circulámos por algumas ruas da cidade (onde voltámos no dia seguinte) e partimos para a praia Abade.
Esta praia alberga uma grande comunidade piscatória, que começa na praia e se prolonga pela ilha dentro. É uma das maiores comunidades piscatórias das ilhas. Pelo que me disseram e pelo que pude observar, é uma comunidade muito pobre. É possível observar as tradicionais casas de madeira, a construção de barcos e pirogas e os métodos de salga e secagem de peixe.

Concentradas na baía, as árvores, em bicos de pés, debruçam-se sobre as águas cristalinas para verem os peixes…

Depois de um mês de trabalho, o tronco que já foi árvore (a ocá) é agora piroga que anseia deslizar nas águas transparentes do Atlântico. Compreende-se a impaciência. A esperança de vida no mar será de dois a três anos...

Um engenhoso secador de peixe. O plástico em baixo cria um efeito de estufa que potencia a energia solar. A rede mosquiteira, na parte de cima, regula a temperatura, evitando a concentração de humidade, e impede as moscas de entrarem. Vou aproveitar a ideia para as minhas secagens de tomate e de abrunhos no próximo verão.

A última paragem do dia foi no miradouro Nova Estrela, na roça com o mesmo nome. A 305 metros de altitude e não muito longe da costa, este é um local de observação privilegiado. Em primeiro plano, a vegetação abundante e diversificada; ao fundo, o mar com uma surpresa: o ilhéu Boné do Jóquei (pela forma que tem).
Miradouro Nova Estrela. Assinalado pela seta, o ilhéu Boné de Jóquei (também chamado ilhéu Caroço), que não é habitado.


Regressados ao Resort, pouco faltava para as 17h, restava pouco tempo de sol. Por estas bandas, seja qual for a época do ano, o sol deita-se cedo (por volta das 18h) e levanta-se cedíssimo (por volta das 5h). 

Na minha praia preferida (lado contrário ao do ilhéu Bom Bom), o negro da lava, que já foi fogo, deixa-se abraçar pelo dourado da areia. Nada melhor para terminar um dia em cheio do que um passeio e um mergulho… e outro… e outro ainda… e mais outro…

Abraço cheio memórias para todos os (ciber)amigos!
António

06/02/16

Ilha do Príncipe – 2.º dia (parte II): a roça Sundy

1. Chegada à roça

Itinerário (feito de jipe no dia 24/01/2016):
1. Roça Paciência 2. Hotel Belo Monte (com um miradouro para a praia banana) – 3. Roça Sundy4. Santo António, a capital do Príncipe (com almoço no incluído no pacote) – 5. Praia Abade (comunidade piscatória) – 6. Miradouro Nova Estrela.

A roça Sundy foi no passado casa da família real portuguesa na ilha do Príncipe. Fundada no século XIX, as datas variam em função dos edifícios. Em 1921, a casa principal, uma das construções mais recentes da roça;  por volta de 1880, a ainda imponente cavalariça, em estilo revivalista, com uma muralha de tipo medieval e janelas em forma de ferradura; em 1915, o complexo de sanzalas.
Encontramos também, à entrada, à esquerda, um grande hospital (cada roça tinha o seu) e o que é considerado o mais interessante edifício do local: uma capela a fazer lembrar uma ermida seiscentista.
Neste espaço, há também plantações de cacau, café, pimenta e baunilha. A primeira planta de cacau do arquipélago, vinda do Brasil, terá sido plantada nesta roça. 
A roça está concessionada à HBD do milionário sul-africano Mark Shuttleworth, estando em curso a sua recuperação, iniciada com o restauro da casa principal.

2. Casa principal (em recuperação). No interior, ainda o mobiliário colonial. O chão do alpendre traseiro com motivos náuticos e da fauna de Portugal.

3. As cavalariças. Sente-se ainda nas boxes o nervoso miudinho dos cavalos...

4. As sanzalas: com gente dentro e a ameaçarem ruína, nelas (sobre)viveram no passado os serviçais e trabalhadores da roça.

5. Protagonistas da azáfama de outros tempos, as máquinas aguardam o piedoso restauro. A locomotiva a vapor animava as prensas na produção de óleo de coco. Para libertar o excesso de vapor, apitava como um comboio, ouvindo-se ao longe.

6. Implacáveis e silenciosas, as raízes alimentam-se dos carris que transportaram há muito o cacau, alimento dos deuses que escravizou os homens...

7. A principal razão da fama da Sundy está no facto de ter sido aqui que, em maio de 1919, Sir Arthur Eddington efetuou uma expedição de observação de um eclipse solar total que veio comprovar a teoria da relatividade de Albert Einstein.

8. Nesta casa da roça, nasceu, ainda na época colonial, o nosso guia, o Sr. João Catarino.

9. A minha companheira de viagens no espaço e no tempo da vida emoldurada nestes preparos de menina de mochila às costas pronta para ir prà escola...

 10. cacaueiro
 11. cafezeiro
 12. pimenta
13. Ylang-yllang (cananga odorata): uma árvore mágica, cujas flores, muito perfumadas, são a base do perfume channel nº 5. Pouco exigente em relação ao clima e ao solo, a planta floresce muito jovem e dá flores continuamente.
Abraço.
António


Fonte de parte das informações partilhadas no artigo e da foto2: http://www.asrocasdesaotome.com/rocas/sundy

03/02/16

Ilha do Príncipe – 2.º dia (parte I)


Itinerário: 
1. Roça Paciência 2. Hotel Belo Monte (com um miradouro para a praia banana)3. Roça SundiSanto António, a capital do Príncipe (com almoço no incluído no pacote) – 4. Praia Abade (comunidade piscatória) – 5. Miradouro Nova Estrela.
 A atividade prevista para o 2.º dia foi feita de jipe e durou o dia inteiro. Apresento-vos hoje as paragens 1 e 2.

1. Roça Paciência
Concessionada (como o Bom Bom Resort) à HBD (do milionário australiano Mark Shuttherworld).
Simples e despojado do ponto de vista arquitetónico, com um terreiro, o local faz lembrar uma pequena quinta.
Antiga casa do administrador com uma belo sisal.

A roça Paciência está actualmente em recuperação e dedica-se a atividades agrícolas. Funciona como escola de pedreiros, uma espécie de formação em serviço em que os jovens são assalariados e aprendem e aplicam as técnicas do ofício.
Local de trabalho e de aprendizagem da arte de pedreiro.

Gostei de ver a horta (totalmente biológica) e a zona de secagem de vários produtos (banana, papaia, gengibre, açafrão-da-terra, malagueta…). 
 Açafrão-da-terra (curcuma) já seco.

 Coentro-selvagem. Planta muito interessante um pouco menos aromática do que o nossa.

À entrada da roça, vi, pela primeira vez, uma planta de banana-ouro.
Também são produzidas compotas diversas. Apreciei particularmente as de água de coco com banana (uma coisa do outro mundo!) e a de papaia com goiaba. Todos os produtos da roça, que podem ser comprados in loco, mas não no resort, são usados no restaurante do Bom Bom Resort, incluindo um muesli tropical disponível ao pequeno-almoço.

2. Hotel Roça Belo Monte
Concessionada (com a praia banana) à empresa holandesa IHDC durante 30 anos.
Com uma localização magnífica, este hotel de charme nasce da recuperação de edifícios coloniais da Roça Belo Monte, estando prevista a constituição em parte das instalações do "Museu de História Natural do Príncipe".
  
Entrada e antiga casa do administrador da roça.

Terreiro da roça. À direita, quartos do hotel. Ao fundo, edifício que será o museu de que falei acima.

Qual patroa da roça, a Cecília ouve, atenta, as explicações do Sr. João.

Lá ao fundo, pode tomar-se um café a respirar a floresta e vestindo os olhos com o azul do mar que vos vou mostrar na última foto de hoje...

No miradouro, o Sr. João, nosso guia. Como muitos santomenses que conheci, um homem tranquilo e com uma filosofia de vida cativante. Ao fundo, o turista alemão que nos acompanhou. Arrogante e mal-educado, que só visto!

Aí está, pela forma que tem, a praia banana. Ficou famosa quando serviu de cenário para um anúncio da Bacardi. Pode-se lá chegar através da roça Belo Monte ou de barco.

Abraço ainda tropical.
António

02/02/16

Como pôde uma mestiça dirigir uma roça no Príncipe há quase 200 anos?


Como referi no artigo de ontem, Dona Maria Correia foi uma mulher poderosa que dirigiu a roça Ribeira Izé. Como é possível uma mestiça ter tal estatuto?
A fonte que citei ontem mostra que há uma razão histórica que nos permite compreender a situação.
Desde o início da colonização, havia ordens oficiais para entregarem aos povoadores escravas do lote pertencente à Fazenda Real, para que estes lhes “fizessem geração”. Um alvará do rei D. Manuel recorda como ele e, antes dele, D. João II tinham ordenado que aos que fossem para São Tomé e Príncipe (degredados ou não) se desse, a cada um, uma escrava para a ter e dela se servir, visando o povoamento. No entanto, segundo a “lei” do ventre (as crianças têm o estatuto do ventre que as gerou), filho de escrava, escravo era, pelo que foi preciso dar um segundo passo que não fora previsto na promoção das uniões mistas (que tinha inicialmente em vista assegurar apenas uma mão de obra bem integrada na ordem colonial). Dessa forma, por carta régia de 29 de Janeiro de 1515, o monarca concede a liberdade às escravas doadas aos primeiros povoadores e aos respetivos filhos.
Informação transcrita/adaptada de “MESTIÇAGEM, ESTRATÉGIAS DE CASAMENTO E PROPRIEDADE FEMININA NO ARQUIPÉLAGO DE SÃO TOMÉ E PRÍNCIPE NOS SÉCULOS XVI, XVII E XVIII”, de Arlindo Manuel Caldeira.

Abraço.

António