09/07/17

Compota de pêssego-careca c/ canela... light!


Depois de uma aplicação nos momentos certos de calda bordalesa, único fungicida (à base de sulfato de cobre e cal) permitido na agricultura biológica, consegui ter uma produção interessante de pêssegos-carecas (nectarinas), embora parte deles tenham bicho, uma espécie de certificado de não toxicidade...
Provavelmente com umas lagartitas lá dentro, mas lindo!

Com metade da colheita, fiz esta compota, seguindo uma receita antiga, herdada da uma avó alentejana, mulher de armas e cozinheira profissional de primeira água.

Tudo seguido à risca, exceto o açúcar. Na receita original, preceitua-se 1 kg de açúcar para 1 kg de pêssegos, ou seja, 50% de fruta. Como juntei apenas 400 g de açúcar, a compota ficou com mais de 70% de fruta na sua composição! O pouco açúcar e o sumo de limão potenciaram o aroma e sabor a pêssego. Fica prometido aos amigos "Ser Mais Valia" que levarei um frasco para uma degustação na próxima reunião. ;)

Doce de pêssego-careca (nectarina) com canela!

Ingredientes:
.1 kg de pêssegos descascados e sem caroço cortados em pequenos cubos
.400 g de açúcar amarelo
.sumo de 1 limão médio
.2 paus de canela

Preparação:
1. Aos pêssegos, junte o açúcar e a canela e regue com o sumo de limão.
2. Envolva bem e deixe marinar durante 1 hora.
3. Num tacho antiaderente, leve ao lume.
4. Quando levantar fervura, deixe apurar em lume brando durante cerca de 1h e 30, até ter a consistência desejada.
5. Ainda quente, coloque em frascos de vidro esterilizados.
6. Depois de arrefecer, guarde a compota no frigorífico. Conservar-se-á pelo menos durante seis meses.

Abraço e bom apetite!
ChefAntónio

26/05/17

De volta a S. Tomé 4: caminhada no Sul.


Cerca de seis quilómetros de aventura!

Ponta Baleia - onde embarcam os turistas que vão para o Ilhéu das Rolas (cerca de 15 min)

Tendo estado um mês em Malanza e Porto Alegre, no Sul (numa missão em 2014), conheço razoavelmente a zona. Logo, não foi difícil estabelecer de uma caminhada (à volta de 5 quilómetros): desde Ponta Baleia até à Praia Inhame, passando por Malanza (onde vivi com os os Leigos para o Desenvolvimento) e Porto Alegre (onde orientei uma formação e um curso de Francês do Turismo aberto à população).
O Adílson (guia que transportou da capital e que já conhecia) deixou-nos em Ponta Baleia ao final da manhã, recolhendo-nos na Praia do Inhame (onde almoçámos o farnel que levávamos) às 15h30.
O muito calor e humidade que se faziam sentir dificultavam a marcha mas, ao mesmo tempo, davam à aventura o cunho tropical que procurávamos: a respiração da floresta a envolver-nos e a colar-se-nos ao corpo como uma segunda pele, as grossas gotas de transpiração a escorrerem pelo rosto, servindo do queixo como de um trampolim para o salto final para o solo negro e fértil da floresta… Mágico!

A seguir, as imagens testemunhadas pela objetiva e gravadas para sempre num cantinho muito especial da memória.

Coqueiros, bananeiras e uma trepadeira muito especial: a baunilha.

Malanza: casa com vista prò mar e foz do rio Malanza.

Apressei o passo para entrar no velho edifício da Roça Porto Alegre e rever o espaço das aulas de Francês...

Choque e tristeza: o teto, já em mau estado em 2014, ruiu e não haverá aqui mais aulas!

Resta a janela. Moldura de uma papaieira, inspirou descrições dos alunos e fez sonhar o professor. Entre telhas partidas e ferros retorcidos, retirei-me em silêncio e, sem olhar para trás, refugiei-me nas memórias felizes do passado...

 Roça de Porto Alegre: casa do patrão (em muito mau estado).

 Depois de Porto Alegre, caminho na floresta, em direção à Praia Inhame.

 Quase a chegar...

 Bungalow no resort.

 Onde é que eu já vi esta linda e gentil princesa?

 Visto da Praia Inhame, o Ilhéu das Rolas ergue-se do oceano...

 Praia do Inhame: areia de ouro, água transparente aquecida pela magia do equador...

 Um último olhar...

Em Porto Alegre, reencontro com o Ruger (em 2014, meu aluno de Francês muito empenhado) e a mãe (D. Cisaltina), que faz uns bolinhos de coco que são uma perdição. Vivendo na rua principal, perto da escola, vende fruta, com destaque para a banana-pão acabada de apanhar. À direita, outro jovem membro da família.

 Escola de Porto Alegre, onde dava aulas à noite.

Já no regresso, a belíssima cascata de Praia Pesqueira.

Enquanto eu tomasse banho na cascata, juntou-se à Cecília uma assistência muito interessada: se eu sabia nadar, se eu ia saltar lá de cima e mergulhar como eles costumavam fazer... Ficaram desapontados quando souberam que não.


 Para alimentar o imaginário do amor e uma cabana na floresta tropical...

Um vendeiro coloca o recipiente no tronco de uma palmeira onde fez um corte. A seiva vai acumular-se e alimentar o seu negócio. Recentemente colhida é de sabor agradável, ao fim do dia, fermentada, transforma-se em vinho da palma. Se consumida no dia seguinte, é de cair para o lado. Um dos problemas do país é o alcoolismo provocado pelo consumo desta bebida.

No regresso à capital, o sempre espetacular Pico Cão Grande com a cabeça nas nuvens. Em primeiro plano, uma amostra da monocultura de palmeiras para produção de óleo de palma que se instalou no Sul. Os responsáveis por este crime ambiental são o governo santomense e a empresa Agripalma. As vítimas são as espécies vegetais e animais desaparecidas ou ameaçadas. Sendo um facto que São Tomé é um país muito pobre (6% do PIB português per capita), este parece-me ser o pior caminho para um suposto desenvolvimento.

A estrada para o Sul (há apenas duas no país) está muito mais destruída do que em 2014 (devido à passagem dos camiões da Agripalma), isolando ainda mais populações do distrito do Caué (o mais pobre). Um primeiro "benefício" deste projeto... 
Segundo o Público, um relatório de Dezembro de 2011, o Programa das Nações Unidas para o Ambiente já alertava para a destruição de florestas tropicais devido "à rápida expansão da monocultura do óleo de palma".  (...) O estudo de impacto ambiental (...) é deficiente, não teve consulta pública e foi difícil de obter. "Estava na Bélgica, em inglês, e a tradução é má".
Resumindo, uma vergonha!

Abraço.
António

24/05/17

De volta a S. Tomé 3 (parte 2): Roças da Saudade e Bombaim

Após o regresso ao ponto de partida, no Jardim Botânico, com a fome a apertar, partimos em direção à Roça da Saudade.
À chegada, esperavam-nos pequenos santomenses a tentar fazer negócio com frutos colhidos na floresta. Comprámos framboesas selvagens e pitangas (tudo muito saboroso).
Logo depois, deparámos com a imagem de Almada Negreiros.
Das ruínas da casa onde nasceu o artista, ergue-se uma casa-museu e um restaurante (com pratos muito bem confecionados, cujo menu (duas entradas, um prato principal e sobremesa) fica a 15€ por pessoa (sem bebida).
Reportagem passada na RTPNotícias em abril de 2015: AQUI.

Antes de regressar à capital, passagem pela Roça Bombaim, incluindo banho na cascata e uma descoberta vegetal: os coentros selvagens, muito usados na gastronomia santomense.

 Impossível resistir!

Coentros-selavgens: muito diferentes dos nossos, mas aroma semelhante, embora menos intenso.

Roça Bombaim:

 Orquídea hospedada numa palmeira (R. Bombaim).

 Mangustão (R. Bombaim)

Abraço.
AP


22/05/17

De volta a S. Tomé 3 (parte 1): subida à Lagoa Amélia de pijama!

Percurso ida e volta (setas amarelas) entre o Bom Sucesso (Jardim Botânico) e a Lagoa Amélia.
(Imagem encontrada AQUI)

Depois de termos saído da capital às 8h00, chegámos ao Jardim Botânico, no Bom Sucesso, cerca de 40 minutos depois.
Pouco depois, chegou o nosso guia Francisco, com uma filosofia de vida muito própria, um amor à floresta como poucos e grande sentido de humor. Trabalha no Jardim e tem formação de apicultor.
Habitualmente, esta atividade começa com uma visita ao Jardim Botânico (que vale bem a pena!), mas, como já o tínhamos visitado em 2014, iniciámos logo o caminho para a Lagoa. A previsão eram cerca de 3h e 30 min para o percurso ida-volta, mas acabaram por ser 4h. Foi-nos dada uma vara tipo cajado para nos apoiarmos nas subidas e lá fomos todos equipados à maneira: botas de caminhada, roupa fresca e confortável, mas a cobrir os braços e as pernas, e repelente em todas as superfícies expostas. 

As únicas calças que encontrei que fossem de algodão, leves e frescas foram as da imagem. Têm uma particularidade: são calças de pijama...
A Cecília optou uma calça de ganga. Gostos...

Ter os braços e as pernas protegidos é de facto importante, pois há plantas urticantes, nomeadamente uma urtiga trepadeira com ar mimoso e inocente, muito diferente da que conhecemos em Portugal. Uma sonsa dissimulada!

Início da caminhada com o Sr. Francisco a marcar o ritmo.

Depois de passar a zona mais agrícola, entrámos no parque Obô (palavra do crioulo forro que significa local abandonado, escondido).


A reserva natural foi criada em 2006 com o objetivo de proteger a riquíssima biodiversidade existente no arquipélago. Ocupa uma vasta área de 295 km² compreendendo as duas ilhas. O parque natural “Obô” é um santuário de fauna e flora onde podem ser observadas muitas espécies raras, algumas das quais em vias de extinção. O elevado endemismo que se verifica na floresta são-tomense e a sua importância levou a que no ano de 1988 a comunidade científica internacional classificasse esta floresta como a segunda mais importante para a conservação da biodiversidade entre 75 florestas africanas. (…)caracteriza-se por ser uma floresta de altitude com precipitações permanentes, o que torna algumas das suas extensões de difícil acesso. É o local ideal para o contacto com a biodiversidade existente nas ilhas.(http://turismoemstp.weebly.com/ecoturismo.html)

Entrada na floresta primária equatorial (onde não se encontram espécies introduzidas como a banana, a fruta-pão ou o mamão) com grande número de espécies, grande densidade de vegetação, predominância de árvores, lianas, grande quantidade de espécies parasitas e  trepadeiras.
Quanto a espécies, há répteis, entre eles, a “cobra preta”, cuja mordedura é fatal se a vítima não for assistidas imediatamente através do antídoto adequado (no regresso, soubemos que tinham avistado uma numa bananeira à saída do parque), aves exóticas, insetos e macacos.

Pelo caminho, fomos parando diante de árvores cujas características e propriedades medicinais nos foram apresentadas com deleite e competência pelo Sr. Francisco. 

Na sombra da floresta, árvores de grande porte crescem ao despique na procura literal de um lugar ao sol...

Figueira-estranguladora. O pau está a apontar para o tronco da árvore que foi abraçada e engolida pela figueira que lhe ocupar o lugar na floresta.

A muitas destas espécies são atribuídas qualidades afrodisíacas, algo que ele contesta veementemente. Dizia ele que se “a coisa estava morta” não era um chá que ia “pô-la de pé”. No entanto, acrescentava, que, como aquelas plantas fazem bem à circulação, em casos “menos graves”, podia ajudar. “Mas um morto é um morto!”, dizia categoricamente, soltando uma pequena gargalhada.
Num momento de pausa, para matar a sede, fomos surpreendidos por um pequeno morcego diurno que durante uns dois ou três minutos andou à nossa volta como que a investigar-nos. Segundo o Sr. Francisco, seria da espécie “fanalice”, o que deve ser um lapso. Por um lado, deve tratar-se de uma corruptela, pois a única designação parecida que encontrei foi “fana-lixo”. Por outro lado, o “fana-lixo” é uma das três que existiam na ilha aquando da descoberta e designa um morcego maior, frugívero, utilizado como alimento pela população mais carenciada.
E lá chegámos à Lagoa Amélia, que é a cratera de um vulcão, com 150 metros de diâmetro, coberta de vegetação.
Mas as aparências iludem... Debaixo da erva, sob uma fina camada de turfa, há um imenso lençol de água que alimenta os rios do país.
A Lagoa Amélia é um local bastante invulgar e mítico, repleto de lendas, como a que retrata a origem do seu nome “Amélia”, relacionado com uma cena trágica de amor ocorrida há muitos anos envolvendo uma jovem portuguesa de nome Amélia que ali se despenhou.(http://turismoemstp.weebly.com/ecoturismo.html)

Com uma longa vara, o Sr. Francisco mostrou-nos a profundidade da Lagoa.

Na cratera, encontram-se impressionantes exemplares de uma das espécies endémicas de São Tomé: a begónia-gigante (a maior do mundo), que pode atingir metros de altura.

Begónias-gigantes.

A Cecília e o Sr. Francisco a posarem para a fotografia.

O regresso foi um pouco mais rápido, mas ainda nos deu oportunidade de assistir à perícia do Sr. Francisco com o seu machim (espécie de catana muito popular no país, às vezes usada também para cortar um ou outro pescoço, sobretudo em desentendimentos conjugais…) a extrair larvas de escaravelho gordas que só visto. 

Alinhadas em espetadas e grelhadas, são um petisco muito apreciado. 

Segundo li, estas larvas são um alimento nutritivo muito saudável. Embora disfarçando bem, a Cecília estava impressionada (negativamente). Já eu, tendo oportunidade, provarei a iguaria. O mesmo não digo em relação aos morcegos e aos macacos, de que o Sr. Francisco também é apreciador. Diz ele que é por isso que ninguém lhe dá os 57 anos com que já conta…
Quase a chegar ao final do percurso, escorreguei numa pedra húmida e lá vai um “bate-cu”. Caí bem, protegido pelas almofadas nadegais.

Acontece...

Em breve virá a parte 2: visita às roças da Saudade e Bombaim, com banhos numa maravilhosa cascata.

Abraço.
António