27/12/17

Ficarias feliz?


Um poema a evocar a felicidade escondida na magia das pequenas coisas...


num dia chuvoso de verão
ficarias feliz se te oferecessem

a face da lua?

Poema haiku de Matsuo Bashô (1644-1694)
In Matsuo Bashô - O eremita viajante (Assírio & Alvim)

Abraço.
ProfAP

26/12/17

Chove torrencialmente...


O fino sentido de humor de Bashô...

chove torrencialmente
neste início de verão --
a cascata vai morrer afogada

Poema haiku de Matsuo Bashô (1644-1694)
In Matsuo Bashô - O eremita viajante (Assírio & Alvim)

Abraço.
ProfAP

25/12/17

A neve que há de vir!


Das prendas natalícias que recebi (sendo dádivas, todas importantes), esta entrou-me pelos olhos dentro e alojou-se para sempre na minha alma de poeta. Com uma vantagem adicional: posso partilhá-la convosco. Aqui fica mais um haiku para alimentar o imaginário...

a pensar na neve que há de vir
o bambu já está inclinado -- 
que curioso!

Poema haiku de Matsuo Bashô (1644-1694)
In Matsuo Bashô - O eremita viajante (Assírio & Alvim)

Abraço.
ProfAP

24/12/17

Natal Africano


Em especial para todos os amigos africanos, sobretudo da Guiné-Bissau e de São Tomé e Príncipe!

Natal Africano

Não há pinheiros nem há neve, 
Nada do que é convencional, 
Nada daquilo que se escreve 
Ou que se diz... Mas é Natal. 

Que ar abafado! A chuva banha 
A terra, morna e vertical. 
Plantas da flora mais estranha, 
Aves da fauna tropical. 

Nem luz, nem cores, nem lembranças 
Da hora única e imortal. 
Somente o riso das crianças 
Que em toda a parte é sempre igual. 

Não há pastores nem ovelhas, 
Nada do que é tradicional. 
As orações, porém, são velhas 
E a noite é Noite de Natal. 
Autor: Cabral do Nascimento: poeta e professor português (1897-1978).
Imagens encontradas AQUI e AQUI.

Flores de luar...


campos de algodão -- 
flores de luar
por todo o lado

Poema haiku de Matsuo Bashô (1644-1694)
In Matsuo Bashô - O eremita viajante (Assírio & Alvim)

Abraço.
ProfAP
Imagem encontrada AQUI.

A sujidade do mundo...


escorrem as gotas de orvalho
na esperança de lavar
a sujidade do mundo

Poema haiku de Matsuo Bashô (1644-1694)
In Matsuo Bashô - O eremita viajante (Assírio & Alvim)

Partilho este bonito poema, simples e intemporal, retirado da obra acima referida, uma prenda de Natal antecipada, cuja leitura me está tornar fã deste poeta japonês.

Abraço.
ProfAP
Imagem encontrada AQUI.

22/12/17

Uma prenda de Natal!


Muitos amigos e colegas me têm contactado pelo meu silêncio aqui no blogue, onde não escrevia desde o final de setembro. Estou bem. ;) O silêncio deve-se ao facto de,  desde o regresso em outubro, uma dupla missão em Bissau, estar a preparar, em regime intensivo, materiais para uma oficina de formação para professores, novamente em Bissau, no início de janeiro, no âmbito da reforma educativa do ensino básico na Guiné-Bissau, iniciativa do Banco Mundial, Fundação C. Gulbenkian e Universidade do Minho. 
Logo que recupere do cartão as fotos tiradas em setembro, partilharei convosco novos "posts" com pequenas coisas que fui observando e registando em Bissau.
Como o Natal está à porta, um grande abraço para os amigos e colegas (sobretudo da Gulbenkian, Guiné-Bissau, São Tomé, da minha associação de voluntariado "Ser Mais Valia", da Escola Ferreira Dias, onde trabalhei durante os últimos 26 anos da minha carreira, e do Colégio Vasco da Gama, onde estive, com muito gosto, no início da semana).
Quanto à prenda para todos, é resultado do meu passatempo da escrita: um pequeno conto de Natal, escrito há algum tempo. A imagem ilustrativa é um recanto mágico do sul de São Tomé e Príncipe (coqueiros, bananeiras e, em primeiro plano, uma trepadeira de baunilha). Seja qual for a vossa religião (ou nenhuma), o meu desejo é que passem bons momentos com todos os que amam e que 2018 vos traga sonhos, emoções e vivências felizes!

O Natal de Eva…

               Aquele parecia ser um dia como todos os outros: soalheiro, ameno, com a cortina das nuvens toda corrida, a revelar, como sempre, um céu muito azul e límpido.
               As aves-do-paraíso-rabilongas (espécie muito vistosa), com os seus voos rasantes, aproveitavam o vaivém do eco para prolongarem os seus gritos estridentes por todo o vale.
               As toutinegras e os rouxinóis, instalados nos pontos mais altos do denso canavial, rivalizavam na harmonia fresca dos seus cantos.
               A espaços, ouvia-se o rumorejar do riacho que corria, feliz, entre as árvores. Nestas, destacavam-se, orgulhosos, os frutos coloridos, verdadeiro milagre de uma vontade invisível: laranjas reluzentes e sedutoras; marmelos amarelos e olorosos, projetados como sóis recortados no ecrã verde seco das folhas; romãs grená, coroadas como rainhas; cachos ciosos das suas uvas maduras a espreitar por entre a vegetação, temendo a gula dos gaios, melros, pardais e mesmo das formigas.
               - Adão! – gritou Eva. – Vem ver… Depressa!
               Junto a uma árvore de grande porte, esplendorosa na sua nudez e muito confiante, pois a vergonha ainda não entrara no dicionário da humanidade, aguardou, impaciente, o grande (e único…) amor da sua vida.
               Ofegante pela pressa com que ocorrera ao chamamento, Adão chegou mesmo a tempo de ver, intrigado, o sorriso enigmático que a pitão-do-paraíso exibia, instalada no pescoço de Eva, o seu local de eleição. Mais do que um animal de estimação, o réptil era uma verdadeira confidente com quem partilhava dúvidas, emoções, pensamentos e opiniões.
               Do alto do seu metro e noventa, atlético, cabelo louro cortado muito rente (com a lâmina de cana que engenhosamente inventara), Adão apreciava, absorto e embevecido, os longos cabelos negros e sedosos da companheira…
               - Adãozinhooo, amor, já reparaste naqueles frutos vermelhos ali ao meio do Jardim? Serão bons?
               Adão e a pitão estremeceram ambos, embora por razões diferentes.
               -Eva, Evinha, sabes bem que o Criador nos quer afastados daqueles frutos…
               - Mas se provarmos só um, unzinho mesmo, tem algum mal?
               Cinco ou seis dias de insistência (cálculo falível, pois ali não havia tempo e era sempre dia…), pressão e chantagem emocional deram os seus frutos. Assim que Adão cedeu, Eva apressou-se a colher uma rainha-do-paraíso (antepassado da maçã reineta atual, que perdeu, entretanto, a cor avermelhada que tinha na origem).
               Deus chegou no preciso momento em que Eva dava pancadas vigorosas nas costas de Adão, tentando, em vão, que o pedaço de fruto preso na garganta se soltasse.
                O que a seguir se passou não foi agradável de se ver: extensa e violenta reprimenda de Deus e expulsão, sem remissão, do Jardim do Éden.
               Eva, mulher de iniciativa, com uma desfaçatez que espantaria até a sua pitão-do-paraíso, caso não tivesse sido extinta momentos antes como castigo por ter instigado Eva a colher o fruto da árvore proibida, perguntou a Deus:
               - Mas, Senhor, é assim? Expulsas-nos do Jardim e já está? Saímos com uma mão à frente e outra atrás, sem nada?
               - E que pretendes, mulher despudorada?
               - Um miminho, algo que nos alegre o espírito.
               - Queres um vislumbre do passado ou do futuro?
               - Do futuro, claro!
              Num ápice, Adão e Eva viram-se, pela primeira vez na vida, vestidos. A roupa, confortável e distinta, assentava-lhes como uma luva, o que, dada a perfeição dos seus portes físicos, não era de surpreender.
               Cercados de gente por todos os lados, que ia e vinha, frenética, entrava e saía das lojas, deslumbravam-se com as luzes multicolores e deleitavam-se com a suave música de fundo que se ouvia em todo o espaço. Decidida, Eva empunhou o cartão de crédito dado por Deus e arrastou Adão, de loja em loja, carregando-o de sacos. Socorrendo-se do vigor da sua juventude e da paciência que a paixão sempre dá, ele seguia-a sem protestar e sorria perante a sua fúria consumista.
               Quando se aproximava o fim do dia, Deus estalou os dedos e, como que por magia, os sacos das compras desapareceram e os pombinhos viram-se diante de Deus exatamente como vieram ao mundo (excetuando as parras…).
               - Mas… - balbuciou Eva, muito desapontada.
               - Mulher, concedi-te apenas um vislumbre.
               - Mas onde estivemos? Que era aquilo tudo? A música, as luzes, as lojas…
               - Estiveste num Centro Comercial e aquilo era o Natal.
               - O Natal?
               - Não podes compreender, Eva. Irei inventar o Natal e os teus descendentes, irão, daqui a muitos anos, reinventá-lo e transformá-lo naquele labirinto cheio de vazio que acabaste de percorrer…
               - Aquilo vai mesmo existir? – Perguntou Eva, vivamente interessada.
               - Infelizmente, assim será… - Respondeu Deus, desalentado.
               Enquanto Adão pensava no fascínio que sentira diante da prateleira dos microportáteis semiorgânicos (uma novidade de meados do século XXI), Eva sentia crescer em si o gene que iria evoluir, aperfeiçoar-se, até chegar àquele Natal que tanto a impressionara. Aproveitando um momento de distração de Deus, virou-se para Adão e disse-lhe ao ouvido:
               - Acho que Ele acabou de nos mostrar o verdadeiro Jardim das Delícias!


António Pereira

29/09/17

De volta a Bissau 6!

 Não tarda, o meu cabelo é uma memória...

Com uma net escassa e irregular, não tem sido possível partilhar informações e emoções como gosto de fazer. 
Concluiu-se hoje a formação dos jovens guineenses no Instituto Camões. Também me despedi há pouco dos funcionários do Ministério das Finanças de Bissau e respetivo Diretor-Geral. Durante duas semanas, tivemos ao fim do dia umas conversas sobre língua portuguesa com base nas falhas detetadas nos relatórios que costumam redigir. Uma espécie de formação em serviço com gente muito jovem e com vontade de aprender.
A festa final no Instituto Camões foi animada. Não faltaram sorrisos, boa disposição e os calorosos abraços à guineense: peito contra peito, pescoço contra pescoço. Sou um pouco desajeitado nessas coisas, mas lá me “encaixei” como pude.
Foto de família com o Dr. Fábio do Instituto Camões.

Feliz por ver cumprido o plano da missão e com a melancolia que as despedidas sempre trazem, parto domingo de madrugada numa viagem de dia inteiro com uma looonga escala em Casablanca.
Entretanto, se a internet o permitir, partilharei algumas coisas que tenho anotadas no meu caderninho de viagens, nomeadamente uma superstição em relação ao transporte de cabras em meios de transporte (aquelas que vão no tejadilho das furgonetas com as bagagens!).
Abraço com chuva todos os dias e a humidade de sempre.

ProfAP

20/09/17

De volta a Bissau 5!


Um texto produzido na sala de aula não tem de ser apenas um exercício escolar. Pode e deve ser também um momento privilegiado de comunicação. Esse estímulo de uma escrita mais autêntica não é isenta de “riscos”. Quando menos espera, o professor vê abrir-se-lhe diante dos olhos a vida do aluno... 
Pedi aos alunos do curso no Instituto Camões que fizessem uma apresentação escrita. Depois de uma saudação, deviam apresentar cerca de dez informações sobre si. A terminar, juntavam a sua frase preferida, uma espécie de lema de vida.
Logo no segundo texto:
“Nasci numa família tranquila, isto é, junto dos meus pais e irmãos, vivendo numa casa de zinco em Bissau. Infelizmente, a minha faleceu repentinamente.”

Ainda não me tinha recomposto, quando leio no terceiro texto:
“Sou órfão de pai e mãe.”

Fiquei sem ação. A juntar a uma vida muito difícil aqui, em que se sobrevive como se pode, a desgraça sempre à espreita…
Ainda não sei como, mas tenho de dar uma palavra de conforto a estes jovens.
Abraço.
António

17/09/17

De volta a Bissau 4!

Apanhado em flagrante...

Correspondendo a um convite, desloquei-me hoje a Quinhamel, a uma hora de distância de Bissau. O programa até era simpático: um banho na piscina do restaurante para abrir o apetite e recuperar do calor abafado, ostras assadas no forno (prato típico desta região) a abrir, seguindo-se-lhe uma bica grelhada (um dos peixes mais saborosos da Guiné) e uma fruta tropical a encerrar o repasto. Muita conversa pelo meio e novo banho antes de voltar o Bissau.
Pois é, planos perfeitos, nem na defunta “pedagogia por objetivos”…
Até começámos bem: amendoins torrados com uma cerveja. Depois de uma longa espera, veio o peixe para a mesa (nada de especial). Quanto a ostras, viste-las, pois o empregado esqueceu-se de as pôr no forno. Frutas tropicais? Viste-las, pois só havia maçãs importadas. E o banho? Viste-lo, pois o uso da piscina tinha passado a ser pago. 5000 francos CFA (quase 8 €), uma fortuna para estas latitudes.
Houve alguma frustração no grupo... 
Para mim, a vista do rio com as pirogas a deslizar junto à outra margem, sob o olhar atento do mangal, as cabaceiras a exibirem ostensivamente os seus os frutos e a cena de um tecelão a construir o ninho encheu-me a alma e fizeram valer a pena cada quilómetro percorrido. 

Embondeiro (a que aqui chamam cabaceira). Depois de seco, o interior do fruto é posto de molho e espremido, dando origem a uma das bebidas mais populares na Guiné: sumo de cabaceira.

A cena é digna do National Geographic. O tecelão macho recolhe materiais (neste caso, tiras que desfia da folha da palmeira) e, com a paciência de um artesão, tece o ninho. Mais tarde, virá uma fêmea apreciar a obra. Se aprovar, o casalinho selará a união. Se não aprovar, nada feito. Ele desfará o ninho e recomecerá a construí-lo...


A cena é digna do National Geographic: o tecelão macho recolhe materiais (neste caso, tiras que desfia da folha da palmeira) e, com a paciência de um artesão, tece o ninho. Mais tarde, virá uma fêmea inspecionar a obra. Se aprovar, o casalinho selará a união. Se não, nada feito. Aí, desfará o ninho e recomeçará a construí-lo as vezes que forem que forem necessárias. Sob pena de ficar para tio.


bica e o não banho já são passado, mas as imagens e vídeo que partilho convosco estarão em exibição contínua no ecrã da memória! Que mais se pode pedir?

Abrasus.
António

16/09/17

De volta a Bissau 3 - aniversário em missão!

Mentiria se dissesse que não senti alguma solidão ao comemorar sozinho este aniversário. Há um ano, também o celebrei aqui, mas na companhia de amigos guineenses e portugueses, tendo a recebido a surpresa de uma festinha à maneira preparada pelas amigos (e, como eu, voluntárias da associação "Ser Mais Valia") Edite e Rosário.
Mesmo assim, há todos os motivos para apreciar o facto de fazer 61 anos (num país em que a esperança média de vida é de pouco mais de 50 anos) a fazer, de corpo e alma o que gosto, pouco importando a latitude. Há lá coisa mais bonita de querermos ser e sermos mesmo cidadãos do mundo?
Assim, caprichei e organizei um menu de aniversário para mim próprio e tudo correu bem, tanto na dimensão real como naquelas para que a imaginação me conduziu. A temática escolhida foi Guiné-Portugal, com ingredientes dos dois países.

A. A entrada
Amendoins guineenses torrados (é a época deles e são excelentes), queijo de cabra curado da Beira e uma cerveja bem gelada.

B. O prato
Arroz de feijão com tomate-cereja seco (da minha horta), batata-doce (guineense) cozida e salteada com flor de aipo seca (tb da minha horta), pepino (mais curtos e bojudos do que os nossos, são abundantes nesta altura e muito saborosos e tenros), filete de atum Tenório em azeite com um pouco de pasta 100% amendoim (comprada junto ao porto, na "Sabores da Tabanca", uma espécie de cooperativa que zela para quem produz receba um pagamento justo pelo seu trabalho), azeitonas de Campo Maior.
Nota: Como não tinha sal e não encontrei nas redondezas, juntei ao estrugido de azeite com alho umas lascas de azeitona cortadas finamente. Ficou com um sabor muito interessante, pelo que irei guardar a receita.

C. A bebida
Uma das bebidas nacionais da Guiné é o ondjo (infusão de flor seca de hibisco) bem fresco. Juntei-lhe folhas e flores de poejo secas (tb da minha horta). No momento de provar, não pude deixar de pensar: "Boa, Sr. Professor!" 

D. A sobremesa
Mais uma vez, Guiné e Portugal de mãos dadas: banana-maçã (de certeza que havia uma árvore no Éden!) e rodelas de pêssego secas (sim, da minha horta).

E. E, finalmente, o bolo
Um donut comprado na Pastelaria Império, ao preço do ouro, esteve à altura do evento com a sua fofura e crocância do chocolate. Quanto à mensagem, tem uma dupla função: por um lado, ser uma mensagem calorosa (de mim para mim); por outro, será, na segunda-feira, um exercício de caça ao erro para os meus jovens alunos. Quem descobrir e corrigir os seis erros recebe um prémio.

Esperando que tenham apreciado a reportagem da festa, segue um abraço apertado!
ProfAntónio

15/09/17

De volta a Bissau 2!

Há quase duas semanas em Bissau a coorientar uma formação de professores, no âmbito de um projeto financiado pela Fundação Gulbenkian e pelo Banco Mundial/UNICEF, dei hoje o pontapé de saída do Kripor II, projeto da minha associação de voluntários "Ser Mais Valia" (com o Instituto Camóes) que tem como objetivo contribuir para o aprofundamento de conhecimentos e competências de jovens guineenses no final do ensino secundário.
Dos quase 25 inscritos, compareceram apenas 15, o que parece ter sido uma consequência de falhas na comunicação.
Interessados e bem-humorados, reagiram bem às sugestões de trabalho.              
Ei-los na sala de aula (que este ano tem ar condicionado):

Logo que possível, contarei a incursão que hoje fiz pelas entranhas do Mercado do Bandim.
Agora vou prà caminha recuperar de pequenos gastroincómodos para estar em forma amanhã para a comemoração a dois (eu + eu) do meu 61.º aniversário.
Abraço e até amanhã!
ProfAP                                                                                                                                                      

04/09/17

De volta a Bissau 1!

Um momento da formação: atentos, o Domingos e a Fátima seguem a apresentação do meu colega de trabalho Rui Ramos, da Universidade do Minho.

Depois de uma viagem cansativa Lisboa-Casablanca e, quatro horas depois, Casablanca-Bissau, cheguei ao destino pela madrugada dentro.
No âmbito do projeto de reforma do ensino básico da Guiné-Bissau (parceria da Universidade do Minho, UNICEF e Fundação Calouste Gulbenkian), iniciei o trabalho de formação de formadores na Escola Superior de Educação Tchico Té em Bissau. Assunto: aprofundamento de conhecimentos e competências em língua portuguesa.
Logo pela manhã, saída do hotel e procura de táxi.
E que táxi! Sem cintos de segurança, estofos com buracos e um fio elétrico a servir de puxador no interior da porta. O vidro da frente, estilhaçado em vários pontos, parecia saído de um cenário de guerra. Como pano de fundo,  saía da instalação sonora o que me pareceu ser uma oração em árabe, o que não é surpreendente, uma vez que cerca de metade da população é islâmica.
O momento alto da curta viagem estava-me reservado… Entrei para o lado do condutor e sentei-me no que parecia ser um inocente banco. Assim que me sentei, apercebi-me de que o estofo estava vazio por dentro. Sem que nada pudesse fazer, as nádegas, apanhadas desprevenidas, preencheram o espaço da estrutura metálica, em forma de quadrado. A cada buraco (havia muitos!) da estrada, o rabo afundava-se mais e mais, como que impelido por uma força invisível. Estupefacto, pensava para mim mesmo: “Acontece-me cada uma!” Chegado ao destino, foi com dificuldade que me desencaixei daquela armadilha de traseiros. Com a dignidade possível, lá fui para a formação.
Como prometido aos amigos, irei dando conta das pequenas coisas desta aventura.
Abraço!

ProfAP

09/07/17

Compota de pêssego-careca c/ canela... light!


Depois de uma aplicação nos momentos certos de calda bordalesa, único fungicida (à base de sulfato de cobre e cal) permitido na agricultura biológica, consegui ter uma produção interessante de pêssegos-carecas (nectarinas), embora parte deles tenham bicho, uma espécie de certificado de não toxicidade...
Provavelmente com umas lagartitas lá dentro, mas lindo!

Com metade da colheita, fiz esta compota, seguindo uma receita antiga, herdada da uma avó alentejana, mulher de armas e cozinheira profissional de primeira água.

Tudo seguido à risca, exceto o açúcar. Na receita original, preceitua-se 1 kg de açúcar para 1 kg de pêssegos, ou seja, 50% de fruta. Como juntei apenas 400 g de açúcar, a compota ficou com mais de 70% de fruta na sua composição! O pouco açúcar e o sumo de limão potenciaram o aroma e sabor a pêssego. Fica prometido aos amigos "Ser Mais Valia" que levarei um frasco para uma degustação na próxima reunião. ;)

Doce de pêssego-careca (nectarina) com canela!

Ingredientes:
.1 kg de pêssegos descascados e sem caroço cortados em pequenos cubos
.400 g de açúcar amarelo
.sumo de 1 limão médio
.2 paus de canela

Preparação:
1. Aos pêssegos, junte o açúcar e a canela e regue com o sumo de limão.
2. Envolva bem e deixe marinar durante 1 hora.
3. Num tacho antiaderente, leve ao lume.
4. Quando levantar fervura, deixe apurar em lume brando durante cerca de 1h e 30, até ter a consistência desejada.
5. Ainda quente, coloque em frascos de vidro esterilizados.
6. Depois de arrefecer, guarde a compota no frigorífico. Conservar-se-á pelo menos durante seis meses.

Abraço e bom apetite!
ChefAntónio

26/05/17

De volta a S. Tomé 4: caminhada no Sul.


Cerca de seis quilómetros de aventura!

Ponta Baleia - onde embarcam os turistas que vão para o Ilhéu das Rolas (cerca de 15 min)

Tendo estado um mês em Malanza e Porto Alegre, no Sul (numa missão em 2014), conheço razoavelmente a zona. Logo, não foi difícil estabelecer de uma caminhada (à volta de 5 quilómetros): desde Ponta Baleia até à Praia Inhame, passando por Malanza (onde vivi com os os Leigos para o Desenvolvimento) e Porto Alegre (onde orientei uma formação e um curso de Francês do Turismo aberto à população).
O Adílson (guia que transportou da capital e que já conhecia) deixou-nos em Ponta Baleia ao final da manhã, recolhendo-nos na Praia do Inhame (onde almoçámos o farnel que levávamos) às 15h30.
O muito calor e humidade que se faziam sentir dificultavam a marcha mas, ao mesmo tempo, davam à aventura o cunho tropical que procurávamos: a respiração da floresta a envolver-nos e a colar-se-nos ao corpo como uma segunda pele, as grossas gotas de transpiração a escorrerem pelo rosto, servindo do queixo como de um trampolim para o salto final para o solo negro e fértil da floresta… Mágico!

A seguir, as imagens testemunhadas pela objetiva e gravadas para sempre num cantinho muito especial da memória.

Coqueiros, bananeiras e uma trepadeira muito especial: a baunilha.

Malanza: casa com vista prò mar e foz do rio Malanza.

Apressei o passo para entrar no velho edifício da Roça Porto Alegre e rever o espaço das aulas de Francês...

Choque e tristeza: o teto, já em mau estado em 2014, ruiu e não haverá aqui mais aulas!

Resta a janela. Moldura de uma papaieira, inspirou descrições dos alunos e fez sonhar o professor. Entre telhas partidas e ferros retorcidos, retirei-me em silêncio e, sem olhar para trás, refugiei-me nas memórias felizes do passado...

 Roça de Porto Alegre: casa do patrão (em muito mau estado).

 Depois de Porto Alegre, caminho na floresta, em direção à Praia Inhame.

 Quase a chegar...

 Bungalow no resort.

 Onde é que eu já vi esta linda e gentil princesa?

 Visto da Praia Inhame, o Ilhéu das Rolas ergue-se do oceano...

 Praia do Inhame: areia de ouro, água transparente aquecida pela magia do equador...

 Um último olhar...

Em Porto Alegre, reencontro com o Ruger (em 2014, meu aluno de Francês muito empenhado) e a mãe (D. Cisaltina), que faz uns bolinhos de coco que são uma perdição. Vivendo na rua principal, perto da escola, vende fruta, com destaque para a banana-pão acabada de apanhar. À direita, outro jovem membro da família.

 Escola de Porto Alegre, onde dava aulas à noite.

Já no regresso, a belíssima cascata de Praia Pesqueira.

Enquanto eu tomasse banho na cascata, juntou-se à Cecília uma assistência muito interessada: se eu sabia nadar, se eu ia saltar lá de cima e mergulhar como eles costumavam fazer... Ficaram desapontados quando souberam que não.


 Para alimentar o imaginário do amor e uma cabana na floresta tropical...

Um vendeiro coloca o recipiente no tronco de uma palmeira onde fez um corte. A seiva vai acumular-se e alimentar o seu negócio. Recentemente colhida é de sabor agradável, ao fim do dia, fermentada, transforma-se em vinho da palma. Se consumida no dia seguinte, é de cair para o lado. Um dos problemas do país é o alcoolismo provocado pelo consumo desta bebida.

No regresso à capital, o sempre espetacular Pico Cão Grande com a cabeça nas nuvens. Em primeiro plano, uma amostra da monocultura de palmeiras para produção de óleo de palma que se instalou no Sul. Os responsáveis por este crime ambiental são o governo santomense e a empresa Agripalma. As vítimas são as espécies vegetais e animais desaparecidas ou ameaçadas. Sendo um facto que São Tomé é um país muito pobre (6% do PIB português per capita), este parece-me ser o pior caminho para um suposto desenvolvimento.

A estrada para o Sul (há apenas duas no país) está muito mais destruída do que em 2014 (devido à passagem dos camiões da Agripalma), isolando ainda mais populações do distrito do Caué (o mais pobre). Um primeiro "benefício" deste projeto... 
Segundo o Público, um relatório de Dezembro de 2011, o Programa das Nações Unidas para o Ambiente já alertava para a destruição de florestas tropicais devido "à rápida expansão da monocultura do óleo de palma".  (...) O estudo de impacto ambiental (...) é deficiente, não teve consulta pública e foi difícil de obter. "Estava na Bélgica, em inglês, e a tradução é má".
Resumindo, uma vergonha!

Abraço.
António