20/09/17

De volta a Bissau 5!


Um texto produzido na sala de aula não tem de ser apenas um exercício escolar. Pode e deve ser também um momento privilegiado de comunicação. Esse estímulo de uma escrita mais autêntica não é isenta de “riscos”. Quando menos espera, o professor vê abrir-se-lhe diante dos olhos a vida do aluno... 
Pedi aos alunos do curso no Instituto Camões que fizessem uma apresentação escrita. Depois de uma saudação, deviam apresentar cerca de dez informações sobre si. A terminar, juntavam a sua frase preferida, uma espécie de lema de vida.
Logo no segundo texto:
“Nasci numa família tranquila, isto é, junto dos meus pais e irmãos, vivendo numa casa de zinco em Bissau. Infelizmente, a minha faleceu repentinamente.”

Ainda não me tinha recomposto, quando leio no terceiro texto:
“Sou órfão de pai e mãe.”

Fiquei sem ação. A juntar a uma vida muito difícil aqui, em que se sobrevive como se pode, a desgraça sempre à espreita…
Ainda não sei como, mas tenho de dar uma palavra de conforto a estes jovens.
Abraço.
António

17/09/17

De volta a Bissau 4!

Apanhado em flagrante...

Correspondendo a um convite, desloquei-me hoje a Quinhamel, a uma hora de distância de Bissau. O programa até era simpático: um banho na piscina do restaurante para abrir o apetite e recuperar do calor abafado, ostras assadas no forno (prato típico desta região) a abrir, seguindo-se-lhe uma bica grelhada (um dos peixes mais saborosos da Guiné) e uma fruta tropical a encerrar o repasto. Muita conversa pelo meio e novo banho antes de voltar o Bissau.
Pois é, planos perfeitos, nem na defunta “pedagogia por objetivos”…
Até começámos bem: amendoins torrados com uma cerveja. Depois de uma longa espera, veio o peixe para a mesa (nada de especial). Quanto a ostras, viste-las, pois o empregado esqueceu-se de as pôr no forno. Frutas tropicais? Viste-las, pois só havia maçãs importadas. E o banho? Viste-lo, pois o uso da piscina tinha passado a ser pago. 5000 francos CFA (quase 8 €), uma fortuna para estas latitudes.
Houve alguma frustração no grupo... 
Para mim, a vista do rio com as pirogas a deslizar junto à outra margem, sob o olhar atento do mangal, as cabaceiras a exibirem ostensivamente os seus os frutos e a cena de um tecelão a construir o ninho encheu-me a alma e fizeram valer a pena cada quilómetro percorrido. 

Embondeiro (a que aqui chamam cabaceira). Depois de seco, o interior do fruto é posto de molho e espremido, dando origem a uma das bebidas mais populares na Guiné: sumo de cabaceira.

A cena é digna do National Geographic. O tecelão macho recolhe materiais (neste caso, tiras que desfia da folha da palmeira) e, com a paciência de um artesão, tece o ninho. Mais tarde, virá uma fêmea apreciar a obra. Se aprovar, o casalinho selará a união. Se não aprovar, nada feito. Ele desfará o ninho e recomecerá a construí-lo...


A cena é digna do National Geographic: o tecelão macho recolhe materiais (neste caso, tiras que desfia da folha da palmeira) e, com a paciência de um artesão, tece o ninho. Mais tarde, virá uma fêmea inspecionar a obra. Se aprovar, o casalinho selará a união. Se não, nada feito. Aí, desfará o ninho e recomeçará a construí-lo as vezes que forem que forem necessárias. Sob pena de ficar para tio.


bica e o não banho já são passado, mas as imagens e vídeo que partilho convosco estarão em exibição contínua no ecrã da memória! Que mais se pode pedir?

Abrasus.
António

16/09/17

De volta a Bissau 3 - aniversário em missão!

Mentiria se dissesse que não senti alguma solidão ao comemorar sozinho este aniversário. Há um ano, também o celebrei aqui, mas na companhia de amigos guineenses e portugueses, tendo a recebido a surpresa de uma festinha à maneira preparada pelas amigos (e, como eu, voluntárias da associação "Ser Mais Valia") Edite e Rosário.
Mesmo assim, há todos os motivos para apreciar o facto de fazer 61 anos (num país em que a esperança média de vida é de pouco mais de 50 anos) a fazer, de corpo e alma o que gosto, pouco importando a latitude. Há lá coisa mais bonita de querermos ser e sermos mesmo cidadãos do mundo?
Assim, caprichei e organizei um menu de aniversário para mim próprio e tudo correu bem, tanto na dimensão real como naquelas para que a imaginação me conduziu. A temática escolhida foi Guiné-Portugal, com ingredientes dos dois países.

A. A entrada
Amendoins guineenses torrados (é a época deles e são excelentes), queijo de cabra curado da Beira e uma cerveja bem gelada.

B. O prato
Arroz de feijão com tomate-cereja seco (da minha horta), batata-doce (guineense) cozida e salteada com flor de aipo seca (tb da minha horta), pepino (mais curtos e bojudos do que os nossos, são abundantes nesta altura e muito saborosos e tenros), filete de atum Tenório em azeite com um pouco de pasta 100% amendoim (comprada junto ao porto, na "Sabores da Tabanca", uma espécie de cooperativa que zela para quem produz receba um pagamento justo pelo seu trabalho), azeitonas de Campo Maior.
Nota: Como não tinha sal e não encontrei nas redondezas, juntei ao estrugido de azeite com alho umas lascas de azeitona cortadas finamente. Ficou com um sabor muito interessante, pelo que irei guardar a receita.

C. A bebida
Uma das bebidas nacionais da Guiné é o ondjo (infusão de flor seca de hibisco) bem fresco. Juntei-lhe folhas e flores de poejo secas (tb da minha horta). No momento de provar, não pude deixar de pensar: "Boa, Sr. Professor!" 

D. A sobremesa
Mais uma vez, Guiné e Portugal de mãos dadas: banana-maçã (de certeza que havia uma árvore no Éden!) e rodelas de pêssego secas (sim, da minha horta).

E. E, finalmente, o bolo
Um donut comprado na Pastelaria Império, ao preço do ouro, esteve à altura do evento com a sua fofura e crocância do chocolate. Quanto à mensagem, tem uma dupla função: por um lado, ser uma mensagem calorosa (de mim para mim); por outro, será, na segunda-feira, um exercício de caça ao erro para os meus jovens alunos. Quem descobrir e corrigir os seis erros recebe um prémio.

Esperando que tenham apreciado a reportagem da festa, segue um abraço apertado!
ProfAntónio

15/09/17

De volta a Bissau 2!

Há quase duas semanas em Bissau a coorientar uma formação de professores, no âmbito de um projeto financiado pela Fundação Gulbenkian e pelo Banco Mundial/UNICEF, dei hoje o pontapé de saída do Kripor II, projeto da minha associação de voluntários "Ser Mais Valia" (com o Instituto Camóes) que tem como objetivo contribuir para o aprofundamento de conhecimentos e competências de jovens guineenses no final do ensino secundário.
Dos quase 25 inscritos, compareceram apenas 15, o que parece ter sido uma consequência de falhas na comunicação.
Interessados e bem-humorados, reagiram bem às sugestões de trabalho.              
Ei-los na sala de aula (que este ano tem ar condicionado):

Logo que possível, contarei a incursão que hoje fiz pelas entranhas do Mercado do Bandim.
Agora vou prà caminha recuperar de pequenos gastroincómodos para estar em forma amanhã para a comemoração a dois (eu + eu) do meu 61.º aniversário.
Abraço e até amanhã!
ProfAP                                                                                                                                                      

04/09/17

De volta a Bissau 1!

Um momento da formação: atentos, o Domingos e a Fátima seguem a apresentação do meu colega de trabalho Rui Ramos, da Universidade do Minho.

Depois de uma viagem cansativa Lisboa-Casablanca e, quatro horas depois, Casablanca-Bissau, cheguei ao destino pela madrugada dentro.
No âmbito do projeto de reforma do ensino básico da Guiné-Bissau (parceria da Universidade do Minho, UNICEF e Fundação Calouste Gulbenkian), iniciei o trabalho de formação de formadores na Escola Superior de Educação Tchico Té em Bissau. Assunto: aprofundamento de conhecimentos e competências em língua portuguesa.
Logo pela manhã, saída do hotel e procura de táxi.
E que táxi! Sem cintos de segurança, estofos com buracos e um fio elétrico a servir de puxador no interior da porta. O vidro da frente, estilhaçado em vários pontos, parecia saído de um cenário de guerra. Como pano de fundo,  saía da instalação sonora o que me pareceu ser uma oração em árabe, o que não é surpreendente, uma vez que cerca de metade da população é islâmica.
O momento alto da curta viagem estava-me reservado… Entrei para o lado do condutor e sentei-me no que parecia ser um inocente banco. Assim que me sentei, apercebi-me de que o estofo estava vazio por dentro. Sem que nada pudesse fazer, as nádegas, apanhadas desprevenidas, preencheram o espaço da estrutura metálica, em forma de quadrado. A cada buraco (havia muitos!) da estrada, o rabo afundava-se mais e mais, como que impelido por uma força invisível. Estupefacto, pensava para mim mesmo: “Acontece-me cada uma!” Chegado ao destino, foi com dificuldade que me desencaixei daquela armadilha de traseiros. Com a dignidade possível, lá fui para a formação.
Como prometido aos amigos, irei dando conta das pequenas coisas desta aventura.
Abraço!

ProfAP

09/07/17

Compota de pêssego-careca c/ canela... light!


Depois de uma aplicação nos momentos certos de calda bordalesa, único fungicida (à base de sulfato de cobre e cal) permitido na agricultura biológica, consegui ter uma produção interessante de pêssegos-carecas (nectarinas), embora parte deles tenham bicho, uma espécie de certificado de não toxicidade...
Provavelmente com umas lagartitas lá dentro, mas lindo!

Com metade da colheita, fiz esta compota, seguindo uma receita antiga, herdada da uma avó alentejana, mulher de armas e cozinheira profissional de primeira água.

Tudo seguido à risca, exceto o açúcar. Na receita original, preceitua-se 1 kg de açúcar para 1 kg de pêssegos, ou seja, 50% de fruta. Como juntei apenas 400 g de açúcar, a compota ficou com mais de 70% de fruta na sua composição! O pouco açúcar e o sumo de limão potenciaram o aroma e sabor a pêssego. Fica prometido aos amigos "Ser Mais Valia" que levarei um frasco para uma degustação na próxima reunião. ;)

Doce de pêssego-careca (nectarina) com canela!

Ingredientes:
.1 kg de pêssegos descascados e sem caroço cortados em pequenos cubos
.400 g de açúcar amarelo
.sumo de 1 limão médio
.2 paus de canela

Preparação:
1. Aos pêssegos, junte o açúcar e a canela e regue com o sumo de limão.
2. Envolva bem e deixe marinar durante 1 hora.
3. Num tacho antiaderente, leve ao lume.
4. Quando levantar fervura, deixe apurar em lume brando durante cerca de 1h e 30, até ter a consistência desejada.
5. Ainda quente, coloque em frascos de vidro esterilizados.
6. Depois de arrefecer, guarde a compota no frigorífico. Conservar-se-á pelo menos durante seis meses.

Abraço e bom apetite!
ChefAntónio

26/05/17

De volta a S. Tomé 4: caminhada no Sul.


Cerca de seis quilómetros de aventura!

Ponta Baleia - onde embarcam os turistas que vão para o Ilhéu das Rolas (cerca de 15 min)

Tendo estado um mês em Malanza e Porto Alegre, no Sul (numa missão em 2014), conheço razoavelmente a zona. Logo, não foi difícil estabelecer de uma caminhada (à volta de 5 quilómetros): desde Ponta Baleia até à Praia Inhame, passando por Malanza (onde vivi com os os Leigos para o Desenvolvimento) e Porto Alegre (onde orientei uma formação e um curso de Francês do Turismo aberto à população).
O Adílson (guia que transportou da capital e que já conhecia) deixou-nos em Ponta Baleia ao final da manhã, recolhendo-nos na Praia do Inhame (onde almoçámos o farnel que levávamos) às 15h30.
O muito calor e humidade que se faziam sentir dificultavam a marcha mas, ao mesmo tempo, davam à aventura o cunho tropical que procurávamos: a respiração da floresta a envolver-nos e a colar-se-nos ao corpo como uma segunda pele, as grossas gotas de transpiração a escorrerem pelo rosto, servindo do queixo como de um trampolim para o salto final para o solo negro e fértil da floresta… Mágico!

A seguir, as imagens testemunhadas pela objetiva e gravadas para sempre num cantinho muito especial da memória.

Coqueiros, bananeiras e uma trepadeira muito especial: a baunilha.

Malanza: casa com vista prò mar e foz do rio Malanza.

Apressei o passo para entrar no velho edifício da Roça Porto Alegre e rever o espaço das aulas de Francês...

Choque e tristeza: o teto, já em mau estado em 2014, ruiu e não haverá aqui mais aulas!

Resta a janela. Moldura de uma papaieira, inspirou descrições dos alunos e fez sonhar o professor. Entre telhas partidas e ferros retorcidos, retirei-me em silêncio e, sem olhar para trás, refugiei-me nas memórias felizes do passado...

 Roça de Porto Alegre: casa do patrão (em muito mau estado).

 Depois de Porto Alegre, caminho na floresta, em direção à Praia Inhame.

 Quase a chegar...

 Bungalow no resort.

 Onde é que eu já vi esta linda e gentil princesa?

 Visto da Praia Inhame, o Ilhéu das Rolas ergue-se do oceano...

 Praia do Inhame: areia de ouro, água transparente aquecida pela magia do equador...

 Um último olhar...

Em Porto Alegre, reencontro com o Ruger (em 2014, meu aluno de Francês muito empenhado) e a mãe (D. Cisaltina), que faz uns bolinhos de coco que são uma perdição. Vivendo na rua principal, perto da escola, vende fruta, com destaque para a banana-pão acabada de apanhar. À direita, outro jovem membro da família.

 Escola de Porto Alegre, onde dava aulas à noite.

Já no regresso, a belíssima cascata de Praia Pesqueira.

Enquanto eu tomasse banho na cascata, juntou-se à Cecília uma assistência muito interessada: se eu sabia nadar, se eu ia saltar lá de cima e mergulhar como eles costumavam fazer... Ficaram desapontados quando souberam que não.


 Para alimentar o imaginário do amor e uma cabana na floresta tropical...

Um vendeiro coloca o recipiente no tronco de uma palmeira onde fez um corte. A seiva vai acumular-se e alimentar o seu negócio. Recentemente colhida é de sabor agradável, ao fim do dia, fermentada, transforma-se em vinho da palma. Se consumida no dia seguinte, é de cair para o lado. Um dos problemas do país é o alcoolismo provocado pelo consumo desta bebida.

No regresso à capital, o sempre espetacular Pico Cão Grande com a cabeça nas nuvens. Em primeiro plano, uma amostra da monocultura de palmeiras para produção de óleo de palma que se instalou no Sul. Os responsáveis por este crime ambiental são o governo santomense e a empresa Agripalma. As vítimas são as espécies vegetais e animais desaparecidas ou ameaçadas. Sendo um facto que São Tomé é um país muito pobre (6% do PIB português per capita), este parece-me ser o pior caminho para um suposto desenvolvimento.

A estrada para o Sul (há apenas duas no país) está muito mais destruída do que em 2014 (devido à passagem dos camiões da Agripalma), isolando ainda mais populações do distrito do Caué (o mais pobre). Um primeiro "benefício" deste projeto... 
Segundo o Público, um relatório de Dezembro de 2011, o Programa das Nações Unidas para o Ambiente já alertava para a destruição de florestas tropicais devido "à rápida expansão da monocultura do óleo de palma".  (...) O estudo de impacto ambiental (...) é deficiente, não teve consulta pública e foi difícil de obter. "Estava na Bélgica, em inglês, e a tradução é má".
Resumindo, uma vergonha!

Abraço.
António

24/05/17

De volta a S. Tomé 3 (parte 2): Roças da Saudade e Bombaim

Após o regresso ao ponto de partida, no Jardim Botânico, com a fome a apertar, partimos em direção à Roça da Saudade.
À chegada, esperavam-nos pequenos santomenses a tentar fazer negócio com frutos colhidos na floresta. Comprámos framboesas selvagens e pitangas (tudo muito saboroso).
Logo depois, deparámos com a imagem de Almada Negreiros.
Das ruínas da casa onde nasceu o artista, ergue-se uma casa-museu e um restaurante (com pratos muito bem confecionados, cujo menu (duas entradas, um prato principal e sobremesa) fica a 15€ por pessoa (sem bebida).
Reportagem passada na RTPNotícias em abril de 2015: AQUI.

Antes de regressar à capital, passagem pela Roça Bombaim, incluindo banho na cascata e uma descoberta vegetal: os coentros selvagens, muito usados na gastronomia santomense.

 Impossível resistir!

Coentros-selavgens: muito diferentes dos nossos, mas aroma semelhante, embora menos intenso.

Roça Bombaim:

 Orquídea hospedada numa palmeira (R. Bombaim).

 Mangustão (R. Bombaim)

Abraço.
AP