29/09/17

De volta a Bissau 6!

 Não tarda, o meu cabelo é uma memória...

Com uma net escassa e irregular, não tem sido possível partilhar informações e emoções como gosto de fazer. 
Concluiu-se hoje a formação dos jovens guineenses no Instituto Camões. Também me despedi há pouco dos funcionários do Ministério das Finanças de Bissau e respetivo Diretor-Geral. Durante duas semanas, tivemos ao fim do dia umas conversas sobre língua portuguesa com base nas falhas detetadas nos relatórios que costumam redigir. Uma espécie de formação em serviço com gente muito jovem e com vontade de aprender.
A festa final no Instituto Camões foi animada. Não faltaram sorrisos, boa disposição e os calorosos abraços à guineense: peito contra peito, pescoço contra pescoço. Sou um pouco desajeitado nessas coisas, mas lá me “encaixei” como pude.
Foto de família com o Dr. Fábio do Instituto Camões.

Feliz por ver cumprido o plano da missão e com a melancolia que as despedidas sempre trazem, parto domingo de madrugada numa viagem de dia inteiro com uma looonga escala em Casablanca.
Entretanto, se a internet o permitir, partilharei algumas coisas que tenho anotadas no meu caderninho de viagens, nomeadamente uma superstição em relação ao transporte de cabras em meios de transporte (aquelas que vão no tejadilho das furgonetas com as bagagens!).
Abraço com chuva todos os dias e a humidade de sempre.

ProfAP

20/09/17

De volta a Bissau 5!


Um texto produzido na sala de aula não tem de ser apenas um exercício escolar. Pode e deve ser também um momento privilegiado de comunicação. Esse estímulo de uma escrita mais autêntica não é isenta de “riscos”. Quando menos espera, o professor vê abrir-se-lhe diante dos olhos a vida do aluno... 
Pedi aos alunos do curso no Instituto Camões que fizessem uma apresentação escrita. Depois de uma saudação, deviam apresentar cerca de dez informações sobre si. A terminar, juntavam a sua frase preferida, uma espécie de lema de vida.
Logo no segundo texto:
“Nasci numa família tranquila, isto é, junto dos meus pais e irmãos, vivendo numa casa de zinco em Bissau. Infelizmente, a minha faleceu repentinamente.”

Ainda não me tinha recomposto, quando leio no terceiro texto:
“Sou órfão de pai e mãe.”

Fiquei sem ação. A juntar a uma vida muito difícil aqui, em que se sobrevive como se pode, a desgraça sempre à espreita…
Ainda não sei como, mas tenho de dar uma palavra de conforto a estes jovens.
Abraço.
António

17/09/17

De volta a Bissau 4!

Apanhado em flagrante...

Correspondendo a um convite, desloquei-me hoje a Quinhamel, a uma hora de distância de Bissau. O programa até era simpático: um banho na piscina do restaurante para abrir o apetite e recuperar do calor abafado, ostras assadas no forno (prato típico desta região) a abrir, seguindo-se-lhe uma bica grelhada (um dos peixes mais saborosos da Guiné) e uma fruta tropical a encerrar o repasto. Muita conversa pelo meio e novo banho antes de voltar o Bissau.
Pois é, planos perfeitos, nem na defunta “pedagogia por objetivos”…
Até começámos bem: amendoins torrados com uma cerveja. Depois de uma longa espera, veio o peixe para a mesa (nada de especial). Quanto a ostras, viste-las, pois o empregado esqueceu-se de as pôr no forno. Frutas tropicais? Viste-las, pois só havia maçãs importadas. E o banho? Viste-lo, pois o uso da piscina tinha passado a ser pago. 5000 francos CFA (quase 8 €), uma fortuna para estas latitudes.
Houve alguma frustração no grupo... 
Para mim, a vista do rio com as pirogas a deslizar junto à outra margem, sob o olhar atento do mangal, as cabaceiras a exibirem ostensivamente os seus os frutos e a cena de um tecelão a construir o ninho encheu-me a alma e fizeram valer a pena cada quilómetro percorrido. 

Embondeiro (a que aqui chamam cabaceira). Depois de seco, o interior do fruto é posto de molho e espremido, dando origem a uma das bebidas mais populares na Guiné: sumo de cabaceira.

A cena é digna do National Geographic. O tecelão macho recolhe materiais (neste caso, tiras que desfia da folha da palmeira) e, com a paciência de um artesão, tece o ninho. Mais tarde, virá uma fêmea apreciar a obra. Se aprovar, o casalinho selará a união. Se não aprovar, nada feito. Ele desfará o ninho e recomecerá a construí-lo...


A cena é digna do National Geographic: o tecelão macho recolhe materiais (neste caso, tiras que desfia da folha da palmeira) e, com a paciência de um artesão, tece o ninho. Mais tarde, virá uma fêmea inspecionar a obra. Se aprovar, o casalinho selará a união. Se não, nada feito. Aí, desfará o ninho e recomeçará a construí-lo as vezes que forem que forem necessárias. Sob pena de ficar para tio.


bica e o não banho já são passado, mas as imagens e vídeo que partilho convosco estarão em exibição contínua no ecrã da memória! Que mais se pode pedir?

Abrasus.
António

16/09/17

De volta a Bissau 3 - aniversário em missão!

Mentiria se dissesse que não senti alguma solidão ao comemorar sozinho este aniversário. Há um ano, também o celebrei aqui, mas na companhia de amigos guineenses e portugueses, tendo a recebido a surpresa de uma festinha à maneira preparada pelas amigos (e, como eu, voluntárias da associação "Ser Mais Valia") Edite e Rosário.
Mesmo assim, há todos os motivos para apreciar o facto de fazer 61 anos (num país em que a esperança média de vida é de pouco mais de 50 anos) a fazer, de corpo e alma o que gosto, pouco importando a latitude. Há lá coisa mais bonita de querermos ser e sermos mesmo cidadãos do mundo?
Assim, caprichei e organizei um menu de aniversário para mim próprio e tudo correu bem, tanto na dimensão real como naquelas para que a imaginação me conduziu. A temática escolhida foi Guiné-Portugal, com ingredientes dos dois países.

A. A entrada
Amendoins guineenses torrados (é a época deles e são excelentes), queijo de cabra curado da Beira e uma cerveja bem gelada.

B. O prato
Arroz de feijão com tomate-cereja seco (da minha horta), batata-doce (guineense) cozida e salteada com flor de aipo seca (tb da minha horta), pepino (mais curtos e bojudos do que os nossos, são abundantes nesta altura e muito saborosos e tenros), filete de atum Tenório em azeite com um pouco de pasta 100% amendoim (comprada junto ao porto, na "Sabores da Tabanca", uma espécie de cooperativa que zela para quem produz receba um pagamento justo pelo seu trabalho), azeitonas de Campo Maior.
Nota: Como não tinha sal e não encontrei nas redondezas, juntei ao estrugido de azeite com alho umas lascas de azeitona cortadas finamente. Ficou com um sabor muito interessante, pelo que irei guardar a receita.

C. A bebida
Uma das bebidas nacionais da Guiné é o ondjo (infusão de flor seca de hibisco) bem fresco. Juntei-lhe folhas e flores de poejo secas (tb da minha horta). No momento de provar, não pude deixar de pensar: "Boa, Sr. Professor!" 

D. A sobremesa
Mais uma vez, Guiné e Portugal de mãos dadas: banana-maçã (de certeza que havia uma árvore no Éden!) e rodelas de pêssego secas (sim, da minha horta).

E. E, finalmente, o bolo
Um donut comprado na Pastelaria Império, ao preço do ouro, esteve à altura do evento com a sua fofura e crocância do chocolate. Quanto à mensagem, tem uma dupla função: por um lado, ser uma mensagem calorosa (de mim para mim); por outro, será, na segunda-feira, um exercício de caça ao erro para os meus jovens alunos. Quem descobrir e corrigir os seis erros recebe um prémio.

Esperando que tenham apreciado a reportagem da festa, segue um abraço apertado!
ProfAntónio

15/09/17

De volta a Bissau 2!

Há quase duas semanas em Bissau a coorientar uma formação de professores, no âmbito de um projeto financiado pela Fundação Gulbenkian e pelo Banco Mundial/UNICEF, dei hoje o pontapé de saída do Kripor II, projeto da minha associação de voluntários "Ser Mais Valia" (com o Instituto Camóes) que tem como objetivo contribuir para o aprofundamento de conhecimentos e competências de jovens guineenses no final do ensino secundário.
Dos quase 25 inscritos, compareceram apenas 15, o que parece ter sido uma consequência de falhas na comunicação.
Interessados e bem-humorados, reagiram bem às sugestões de trabalho.              
Ei-los na sala de aula (que este ano tem ar condicionado):

Logo que possível, contarei a incursão que hoje fiz pelas entranhas do Mercado do Bandim.
Agora vou prà caminha recuperar de pequenos gastroincómodos para estar em forma amanhã para a comemoração a dois (eu + eu) do meu 61.º aniversário.
Abraço e até amanhã!
ProfAP                                                                                                                                                      

04/09/17

De volta a Bissau 1!

Um momento da formação: atentos, o Domingos e a Fátima seguem a apresentação do meu colega de trabalho Rui Ramos, da Universidade do Minho.

Depois de uma viagem cansativa Lisboa-Casablanca e, quatro horas depois, Casablanca-Bissau, cheguei ao destino pela madrugada dentro.
No âmbito do projeto de reforma do ensino básico da Guiné-Bissau (parceria da Universidade do Minho, UNICEF e Fundação Calouste Gulbenkian), iniciei o trabalho de formação de formadores na Escola Superior de Educação Tchico Té em Bissau. Assunto: aprofundamento de conhecimentos e competências em língua portuguesa.
Logo pela manhã, saída do hotel e procura de táxi.
E que táxi! Sem cintos de segurança, estofos com buracos e um fio elétrico a servir de puxador no interior da porta. O vidro da frente, estilhaçado em vários pontos, parecia saído de um cenário de guerra. Como pano de fundo,  saía da instalação sonora o que me pareceu ser uma oração em árabe, o que não é surpreendente, uma vez que cerca de metade da população é islâmica.
O momento alto da curta viagem estava-me reservado… Entrei para o lado do condutor e sentei-me no que parecia ser um inocente banco. Assim que me sentei, apercebi-me de que o estofo estava vazio por dentro. Sem que nada pudesse fazer, as nádegas, apanhadas desprevenidas, preencheram o espaço da estrutura metálica, em forma de quadrado. A cada buraco (havia muitos!) da estrada, o rabo afundava-se mais e mais, como que impelido por uma força invisível. Estupefacto, pensava para mim mesmo: “Acontece-me cada uma!” Chegado ao destino, foi com dificuldade que me desencaixei daquela armadilha de traseiros. Com a dignidade possível, lá fui para a formação.
Como prometido aos amigos, irei dando conta das pequenas coisas desta aventura.
Abraço!

ProfAP

09/07/17

Compota de pêssego-careca c/ canela... light!


Depois de uma aplicação nos momentos certos de calda bordalesa, único fungicida (à base de sulfato de cobre e cal) permitido na agricultura biológica, consegui ter uma produção interessante de pêssegos-carecas (nectarinas), embora parte deles tenham bicho, uma espécie de certificado de não toxicidade...
Provavelmente com umas lagartitas lá dentro, mas lindo!

Com metade da colheita, fiz esta compota, seguindo uma receita antiga, herdada da uma avó alentejana, mulher de armas e cozinheira profissional de primeira água.

Tudo seguido à risca, exceto o açúcar. Na receita original, preceitua-se 1 kg de açúcar para 1 kg de pêssegos, ou seja, 50% de fruta. Como juntei apenas 400 g de açúcar, a compota ficou com mais de 70% de fruta na sua composição! O pouco açúcar e o sumo de limão potenciaram o aroma e sabor a pêssego. Fica prometido aos amigos "Ser Mais Valia" que levarei um frasco para uma degustação na próxima reunião. ;)

Doce de pêssego-careca (nectarina) com canela!

Ingredientes:
.1 kg de pêssegos descascados e sem caroço cortados em pequenos cubos
.400 g de açúcar amarelo
.sumo de 1 limão médio
.2 paus de canela

Preparação:
1. Aos pêssegos, junte o açúcar e a canela e regue com o sumo de limão.
2. Envolva bem e deixe marinar durante 1 hora.
3. Num tacho antiaderente, leve ao lume.
4. Quando levantar fervura, deixe apurar em lume brando durante cerca de 1h e 30, até ter a consistência desejada.
5. Ainda quente, coloque em frascos de vidro esterilizados.
6. Depois de arrefecer, guarde a compota no frigorífico. Conservar-se-á pelo menos durante seis meses.

Abraço e bom apetite!
ChefAntónio