23/09/18

Missão Cabo Verde XVI: Um jantar especial!

Com o meu novo amigo Amílcar Barbosa (foto tirada pela Jennifer, a empregada do restaurante).

Quando o meu amigo de longa data Adérito Barbosa soube que eu estava em Cabo Verde, não se poupou a esforços para me proporcionar uns felizes momentos de lazer. Como dos seus 18 irmãos (!) vive em São Vicente, pediu-lhe para me contactar e me convidar para uma noite especial. Depois de várias diligências, procurou o Frei Silvino e este pô-lo em contacto comigo.
Embora a deslocação a uma casa de mornas não tenha sido possível devido a um problema com o equipamento, jantámos, seguindo as excelentes sugestões do Amílcar, tudo regado com um vinho branco muito especial com uvas nascidas e criadas nas encostas do vulcão da ilha do Fogo. Falámos durante horas sobre as nossas aventuras, pois ambos temos aquele grãzinho de loucura que dá um gostinho especial à vida.
Terminado o jantar, seguiu-se uma visita guiada a vários pontos de interesse da cidade do Mindelo.
Mais um momento para recordar na minha missão cabo-verdiana!
Abraço e bom domingo para todos.
ProfAP

22/09/18

Missão Cabo Verde XV: A letra f!

Depois de se ter portado mal (muito!), o Ramiro a trabalhar sob a minha supervisão no espaço da biblioteca.

Os artistas de meio palmo deram-nos que fazer esta semana: gritos, lápis e borrachas a voarem em todas as direções, recusas de fazer as tarefas e algumas chapadas (rapidamente retribuídas). Esclareço que as chapadas eram dadas e recebidas entre eles...
Sabe Deus como, lá fomos (a Márcia e eu) dando conta do recado com reforços positivos e ameaças (cumpridas) de que ninguém ia brincar sem concluir os trabalhos.
O "f" minúsculo foi problemático, pelo que surgiu a imagem de um chouricinho com um laço ao meio. Acharam graça e houve alguma evolução.
Já admirava os professores do 1.º ciclo e educadores de infância. Agora, admiro-os muitíssimo mais!
Um bom fim de semana para todos!
ProfAP

20/09/18

Missão Cabo Verde XIV: O homem que queria ser um pássaro!

Apresento-vos o Frei Silvino!

Como nas histórias anteriores, esta baseia-se nas características físicas e psicológicas de alguém real: neste caso, o Frei Silvino, presidente do Centro Jovem, parceiro da associação de voluntariado "Para Onde?", que me integrou nesta missão.
Embora acessível, a linguagem é mais elaborada, pelo que se destina a alunos a partir do 3.º e 4.º anos. Abraço e boa leitura!


O homem queria ser um pássaro!

Era uma vez um homem que queria ajudar todos os meninos do mundo. Alto, robusto, barba branca e sorriso fácil: era assim o Frei Silvino.
Como andava muito depressa, era difícil acompanhá-lo, a não ser em passo de corrida ou quando alguém o interpelava. Aí, parava e correspondia efusivamente. “Como está a “senhorra?”, dizia ele com o seu “r” carregado.
E seguia o seu caminho em direção à Ribeira da Craquinha ou à Pedra Rolada.
Mas, apesar de o sorriso parecer o mesmo de sempre, havia qualquer coisa que andava a roubar-lhe a alegria.
Muitas vezes, sentava-se e punha a cabeça entre as mãos imóvel e sem dizer nada. Outras vezes, suspirava e dizia para si mesmo:
-- Pobrres crrianças abandonadas neste mundo…
Um dia, saiu de manhã muito cedo, atravessou a Craquinha e dirigiu-se, no seu passo decidido, na direção de Alto Martins.
Esgueirou-se por entre as casas, contornou pequenos arbustos espinhosos e, depois de atravessar uma zona de destroços de carros abandonados, percorreu a longa planície de terra cor de tijolo, com leitos secos de pó de lava, tudo emoldurado pelo cinzento difuso das montanhas ao longe.
Passada quase uma hora a caminhar, chegou a uma casa abandonada na base do monte. Sentou-se numa pedra escura e áspera, fechou os olhos e ali ficou numa demorada e secreta conversa com Deus.
Por fim, impulsionado por uma força vinda não se sabe de onde, levantou-se e começou a subir, escolhendo cuidadosamente as pedras onde punha os pés.
Ao passar junto a pequena bacia de água, resultado do fio líquido, fraco mas contínuo, que se escoava das pedras, baixou-se e humedeceu a testa e os lábios.
Chegado ao ponto mais alto, voltou a sentar-se, olhou para céu, entrou numa espécie de transe e começou a dizer coisas que só ele entendia…
Por fim, levantou-se e disse:
-- Ajudai-me, meu Deus!
Logo depois de dizer estas palavras, sentiu uma dor quase insuportável na zona dos ombros, enquanto de lá começavam a sair penas pretas e luzidias.
Em pouco tempo, formaram-se no seu corpo umas enormes e fortes asas.
Sem uma palavra, lançou-se no vazio e voou vigorosamente para o interior do continente africano.
Ao fim do dia, houve alvoroço no centro da Ribeira quando algo nunca visto, com grandes asas, começou a descer do céu em direção centro do campo de futebol. Era o Frei Silvino!
Os adultos fugiram espavoridos, mas as crianças, curiosas, correram para ele e brincaram nas suas asas como se de um escorrega se tratasse.
Depois de uma breve oração em silêncio, as asas recolheram, voltando a ser o Frei Silvino de sempre.
E todos os dias era assim: subia o Alto Martins (ou o Monte Verde, no lado oposto), cresciam-lhe as asas e voava ninguém sabe para onde. Ao fim dia, aterrava sempre com aparato no campo de futebol com uma precisão milimétrica.
Para alívio de todos, voltou a ser a pessoa alegre que sempre fora.
E viveu feliz para sempre!
António Pereira (14-09-2018)

19/09/18

Missão Cabo Verde XIII: O bico do passarinho!

Mãos que escrevem, futuro a fazer-se...


Durante esta semana, vou estar no Centro da Ribeira da Craquinha com a Márcia.
Depois de uma reunião com o Frei Silvino e a Sueli (coordenadora), ficou estabelecido que ficaríamos com as crianças do 1.º e 2.º anos. Objetivo: identificar problemas na caligrafia e aplicar estratégias para a aperfeiçoar.
Logo na primeira sessão, demo-nos conta de que nem todos conseguiam escrever o “b” minúsculo com correção.
Depois de várias explicações e tentativas, surgiu uma ideia meio maluca:
-- Atenção, todos a ouvir. Desenham um l e imaginam que encostadinho a ele há um passarinho, mas só se vê o pescoço e o biquinho.
E não é que resultou? Ora vejam a evolução na folha do Mauro:


A minha colega Márcia em ação. De t-shirt azul e branca o já vosso conhecido David!

Resta-me enviar aquele abraço e fazer votos que haja muitos passarinhos no jardim da vossa alma!
ProfAP

18/09/18

Missão Cabo Verde XII – A arte e os jovens mindelenses...

Vista de dentro do Centro Cultural para a rua.

Andava eu a circular de quadro em quadro no Centro Cultural do Mindelo, quando me apercebi de que um grupo de adolescentes se aglomerava à volta de um quadro. Fiquei embevecido por gente tão jovens a interessar-se uma obra de arte e disse para mim mesmo “Que coisa mailinda!”
Quando se deram conta de que estava a observá-los, calaram-se nos comentários animados (que não entendi, pois falavam em crioulo) e afastaram-se em silêncio.
Morto de curiosidade, fui ver o quadro que tanto interesse despertara. Sem comentários, aqui fica a obra intitulada “Avaliação Curricular”:


Sem dúvida que o conjunto resulta em pleno: cores, luz, movimento e… formas! E nada de segundas interpretações, ok?

Abraço e boa arte para todos.

ProfAP

Missão Cabo Verde XI - A bela-sombra!

É linda ou não é?


Quando viajo, uma das coisas que muito me interessam é património vegetal. Se os houver, visito os jardins botânicos e zonas protegidas e observo com atenção os jardins e parques por onde passo.
Logo no dia da chegada a São Vicente, perdi-me de amores por uma árvore que abunda por aqui. Ao vê-la, de porte elegante, com folhas luzidias em forma de coração, questionei-me se não seria uma japonica da família das camélias e azáleas.
 A elegante bela-sombra!

Perguntei em vão a várias pessoas se sabiam o nome da planta, até que o Pablo (o jovem cabo-verdiano protagonista da história da estrela-do-mar chamada Estrelinha) me disse que conhecia um senhor que quase de certeza me iria ajudar.
No dia e hora aprazados, lá fomos a casa do Sr. Morais, um branco que vive em Cabo Verde há muitos anos e que deve andar nos 80 anos. De baixa estatura e olhar arguto, recebeu-me com entusiasmo igual ao meu e estivemos a conversar mais de uma hora. No empolgamento das suas palavras, falou-me das espécies de São Vicente, numa verdadeira visita guiada imaginária: espinho-branco, acácia-arábica, acácia-americana, passando pelo assustador lavatão (que já conhecia sem saber o nome), cuja seiva pode provocar cegueira se entrar em contacto com os olhos…
Quanto ao objeto da minha paixão, dá pelo nome poético de bela-sombra.
O tenebroso Lavatão...

O futuro dirá se as sementes deste amor (que já recolhi) vão germinar na minha horta-refúgio em Azeitão!
Abraço recheado com o sol que brilha no Mindelo, sob o olhar atento do Monte Cara.
ProfAP

15/09/18

Missão Cabo Verde X - Mais um aniversário em missão!

62.º aniversário!

Tud dret? (= Tudo bem?)
Terceiro ano consecutivo a celebrar o aniversário por terras longínquas (Guiné e agora Cabo Verde).
As minhas colegas de missão, não sabem, pois estando com as finanças exauridas (e ainda faltam duas semanas de trabalho!), poderiam sentir-se na obrigação de tomar alguma iniciativa celebrativa com custos associados.
Nem a Bia, que está aqui à minha frente e tem, como eu, as finanças equilibradas, sabe. Digo-lhe amanhã.
Para celebrar, nada melhor que uns filetes de bodião grelhados (na imagem) no Elvis Restobar e a alegria de estar a viver experiências novas nesta fase da vida mais tardia e a fazer aquilo de que gosto: partilhar os conhecimentos e competências que tive o privilégio de receber e, não menos importante, fazer (sor)rir e alimentar sonhos e emoções. Como diz um filósofo grego, o verdadeiro conhecimento vem de dentro!
Um abraço a todos.
ProfAP